Pular para o conteúdo principal

Acordo iraniano. Ou quem quer ser fiador?

O Brasil, ou melhor, o governo brasileiro (leia-se governo Lula) conseguiu o que julga ser uma grande vitória da diplomacia brasileira, sem dúvida será assim veiculado pelo governo e seus defensores. É natural que políticos celebrem o que consideram ser suas vitórias. Uma análise internacional, feita independentemente (como as feita na academia são ou deveriam ser) deve ser construída com lógica e dados. Nesse sentido ainda carecemos de dados, precisamos das “fine prints” do acordo, das letras miúdas do tratado.

O ambiente nacional está cada vez mais “contaminado” pelo debate eleitoral e nesse sentido críticas a política externa são tidas como tendo fundo eleitoral, tanto que me sinto compelido a escrever essas letras explicativas das minhas intenções e o faço não para dar satisfações a uma suposta patrulha de conduta, mas sim para que eu possa ser entendido da melhor maneira possível.

O acordo nuclear com Irã é a mais nova faceta da estratégia nacional de ser um global player, o que implica em ter influência e atividade política em várias regiões do mundo, distintas das esferas imediatas. A questão continua a ser de ordem tática, isto é, em que partes do mundo e em que tipo de situações vamos participar? Logicamente o que norteia isso é o senso político das lideranças e o interesse nacional (e como ele é percebido pelas lideranças).

A assinatura pelos ministros de relações exteriores do Irã, Turquia e Brasil desse documento que prevê segundo relatos o envio de material nuclear enriquecido para que a Turquia seja fiel depositária, e transcorrido um período de tempo determinado o Irã receberia material em forma de combustível nuclear para seu reator experimental. Basicamente, o mesmo acordo proposto pela AIEA, em outubro, do ano passado, que foi inicialmente aceito, posição que se reverteu logo após.

O Brasil empenhou bastante de seu capital político, duramente acumulado via crescimento econômico dos últimos anos, em provar para a comunidade internacional que é capaz de atuar em situações limites e delicadas e de que o Irã é potencialmente um “bom cidadão” internacional caso este não seja pressionado, ou seja, a tese principal de Brasília é que a negociação e concessão seriam modelos melhores para lidar com a República Islâmica do que a pressão e as sanções. Contudo, essa tese para ser empregada necessita que seus executores de um lado minimizem as declarações do Ahmadinejad e a repressão brutal que o regime realiza aos seus opositores, minorias religiosas e sexuais e por outro exaltar a legitimidade e o caráter estatal desse relacionamento que seria calcado na igualdade jurídica entre os estados e na não-intervenção (que justifica o silêncio ante a repressão).

Ao mediar esse acordo, que não é completo, e sim pouco mais que uma declaração de intenções o Brasil de certo modo se torna um fiador do comportamento do Irã, juntamente com a Turquia é verdade, mas este tem motivos reais para o envolvimento na questão. Sem contar que a despeito da publicidade pessoal que tão bem faz o presidente Lula, foi preciso a pressão de potências outras para encaminhar esse entendimento, como a clara iniciativa russa, que voltou a agir na região, que voltou a ter uma política de potência, de império, diriam alguns.

Do ponto de vista global, as potências européias receberam com ceticismo e desconfiança o acordo, que é justificável dado o histórico das negociações nucleares e as reiteradas vezes que o governo iraniano dificultou ou até mesmo impediu a atuação de inspetores nuclear da AIEA, que são imprescindíveis para dar legitimidade e validade a tese de exclusividade civil do programa nuclear do referido país.

Esse passo de “boa vontade” (que deve ser provada) pode não passar de um estratagema da diplomacia iraniana, para minar os esforços liderados pelos EUA, para o endurecimento de sanções, sem, contudo retroceder em sua agenda nuclear seja a declarada ou a suposta armamentista. Assim o acordo dificulta a ação do Conselho de Segurança, mas não cria confiança na região. Ou seja, apesar de todo o esforço e estardalhaço sendo feito não há sinal de que esse acordo vá criar um caminho que afaste a real sombra de conflito bélico.

Mesmo por que o Irã nos últimos anos tem sido ambíguo em matéria nuclear, afirmando que seu programa é justo e para uso civil, ao mesmo tempo em que impede inspeções e que mantém instalações secretas, além dos testes de mísseis que podem ser usados como vetores de armamento. Nesse particular usa as supostas ameaças de intervenção dos EUA, ou de Israel, como justificativa, para a posse “defensiva” de ogivas nucleares, contudo, ameaça reiteradamente de varrer do mapa Israel, o que não deixa de ser uma ameaça de uso, de “first strike”. Qual das duas versões dadas pelo regime é a verdadeira?

Se o alcance do entendimento será realmente um passo para um melhor relacionamento da região ou apenas um embuste para evitar as sanções do CS, só o tempo dirá. Mas, que de agora em diante, uma parte da reputação brasileira está atrelada ao comportamento iraniano, isso é fato. Que conseqüências isso trará? Também, resta por saber. Como sempre recomendo prudência na hora de comemorar vitórias ou lamentar derrotas em política externa. Afinal o acesso a dados confiáveis é vital para uma boa analise além de objetividade, nesse momento o ufanismo pode exagerar as virtudes da política externa brasileira, bem como se pode incorrer no inverso e diminuir a ação.

Uma avaliação que pode ser feita a priori, é que as questões do Oriente Médio, entraram em uma fase mais multilateral, com novos atores tentando influir na região, com a volta da Rússia, com a Turquia, com a China e o Brasil. Além, dos tradicionais atores europeus e EUA. Todos misturando interesses políticos, econômicos e energéticos. Ou seja, muito se fala em paz, em causa palestina, em justiça, enfim em nobres motivos, mas podemos ver agendas políticas “tradicionais”, isto é, poder. Seja espalhando influência, modos de vida (e isso vale para EUA e Irã).

Para o bem ou para o mal o Brasil agora está envolto numa das mais voláteis regiões do mundo, em um papel aproximado ao papel de um fiador. Temos um relacionamento tão próximo e com tanta confiança assim com o Irã a ponto de ser uma espécie (isso por que não há acordo especificando isso, mas empenhamos muito esforço e imagem nesse entendimento) de fiador?

___________________
P.S: Só para constar escrevo esse texto ainda no regime de plano B, ou seja, com acesso muito limitado a internet e não li ainda a opinião de muitos analistas. 

Comentários

Penso que há coerência em afirmar que, com a agenda de política externa brasileira, Lula tem lá suas razões e intenções para com a questão nuclear iraniana, justo agora neste nosso período pré-eleitoral, pois, todo partido político quer se manter no poder por meio de seus programas domésticos e, agora, nesta fase de movimento de projeção internacional do Brasil que ele está promovendo.
Penso que, como exposto pelo autor, somente a legitimidade da OIEA na questão iraniana pode afirmar, com alguma segurança, de que as intenções deste Estado são as melhores possíveis. Espero que não estejamos "brincando com fogo".
Carol disse…
Ignorando o fato de que agora, MAIS DO QUE NUNCA, Lula vai 'se achar' mais ainda no SI, o resultado dessa negociaçao dá sim mais moral pra diplomacia brasileira, mesmo embora a gente saiba que o nosso crédito é mínimo, pq convenhamos, Ammadinejad teria feito o mesmo acordo com qq outro país, contanto que esse nao seguisse a cartilha americana... do tipo "só pra contrariar" mesmo.

Li de alguma analista que essa auto-confiança do Lula( de "como se ele fosse um mágico que pudesse fazer qq truque, mesmo que outros já tenham tentado, sem exito") pode ser bem comparada à política americana, que acha que a atençao do mudo está (ou deveria estar, no nosso casa) virada pra si. E quando maior a altura, maior o tombo...

Mas enfim...
Mário Machado disse…
Ainda não havia lido os comentários dos dois (Carol e Leandro), mas de certo modo no texto que publiquei hoje trato de questões que vcs abordam, obrigado pelos comentários.

Postagens mais visitadas deste blog

A apuração eleitoral e o observador das Relações Internacionai

O Colégio Eleitoral americano e a apuração dos votos, nos parecem muito complicadas e pensamos: no Brasil é bem melhor. Nós olhamos o mundo pelas lentes de nossa cultura e isso afeta o julgamento que fazemos de diversas situações e realidades internacionais. Muitos conflitos em negócios internacionais têm nesse fato sua origem.   A natureza federalista, com ênfase, estadual dos EUA é muito diferente do nosso federalismo e há complexas raízes históricas para isso. Boa parte do debate constitucional original daquele país gira em torno dos Direitos dos Estados. Nosso sistema tem um caráter centralizado, que ignora as nuances regionais em troca de processos uniformizados. A informatização do voto trouxe de fato, muita celeridade ao processo, mas a adoção desse regime não foi feita com um amplo debate nacional e são comuns as desconfianças sobre a integridade desse modo de fazer eleições. Muitas opiniões publicadas sobre o sistema eleitoral de lá e de cá são apenas as lentes da fa...

Lição Chinesa

O governo chinês é importante parceiro comercial no continente africano. Comprando, basicamente, commodities e ofertando bens e serviços, além de empréstimos para projetos de desenvolvimento. Esse arranjo gera para o lado chinês maior influência global e abertura de novos mercados. Pelo lado africano oferece acesso a bens, serviços e empregos.  Trocar commodities por bens de maior valor agregado causa deterioração dos termos de troca, isto é, a diferença entre o valor que exportado e o valor do que é importado. O que naturalmente gera endividamento. Diante desse cenário, o governo chinês usa sua demanda interna e capacidade de importação via acordos comerciais setoriais que aproveitam vantagens comparativas locais dando escala na produção de itens desejados pela China e garantindo mercado para esses produtos.   O que paulatinamente contribui para equilibrar a balança comercial com essas nações africanas ao mesmo tempo que garante abastecimento para a China. Em tempos de ...

A Inflação nas camadas de renda mais mais baixas

O apresentador anuncia um índice de inflação. O economista entrevistado explica quais foram os vilões da inflação daquele mês, geralmente no setor de hortifrúti de um supermercado. O índice é tido como “bom” e dizem que a inflação está controlada, mas você sabe que tudo que você compra subiu de preço e pensa será que estão mentindo para mim? Como são feitos esses índices de inflação? Existem vários índices de inflação calculados por diversas entidades e a diferença entre eles se dá no que os economistas e estatísticos chamam de cesta de consumo, isto é, o que as famílias compram e a proporção desses gastos em termos da renda total da família. Por exemplo, se a família gasta mais da renda dela com aluguel, um aumento desse custo tem impacto maior que outros preços na composição do índice. A inflação, também, depende do nível de renda. O IPEA, mediu que no acumulado do ano, até setembro de 2020, a inflação na faixa de renda muito baixa (renda familiar menor que R$ 1.650,50, por mês) fo...