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A hora de Cuba? Por Francisco Seixas da Costa

CubaSempre que o assunto é Cuba, os ânimos se exaltam e o risco de cegueira ideológica é enorme, aliás, tenho uma posição de que o lugar de Cuba no discurso político brasileiro é desproporcional a importância e influência desse país insular. A grande notícia de ontem foi o anúncio da retomada de relações diplomáticas entre EUA e Cuba. É um passo importante, sem dúvidas, para o fim do embargo iniciado na infame Crise dos Mísseis.

Cuba é uma ditadura protegida pela aura romântica nutrida pelo arrebatamento utópico da esquerda latina, tanto é que o apoio de Fidel a ditadura de Videla (que mostra pragmatismo que os apaixonados defensores se recusam a ter, por sinal) na Argentina é esquecido ou simplesmente desconhecido. Esse lugar exagerado de Cuba dificulta sobremaneira uma abordagem do tema de uma maneira equilibrada e desapaixonada. Eu mesmo capitulo diante dessa dificuldade, assim eu trago um bom texto do ex-embaixador português no Brasil e em França (como ele escreveria) Francisco Seixas da Costa. É claro, ainda não é uma análise aprofundada é um instantâneo do momento, calcado em anos de estudo e experiência, mas um instantâneo. (O texto é transcrito com autorização do autor e o original pode ser lido aqui)

A hora de Cuba?

Por Francisco Seixas da Costa

O anúncio de um início de reaproximação entre Cuba e os Estados Unidos é um interessante sinal de distensão entre dois países cujo conflito é uma das mais duradouras heranças da Guerra Fria.

Washington nunca aceitou o derrube da sinistra ditadura de Baptista, um títere que se mantinha na lógica da "doutrina Monroe" e que havia transformado a ilha num prostíbulo e num casino, dando um sólido argumento para a revolta titulada por Fidel de Castro. Os refugiados cubanos nos Estados Unidos condicionaram, a partir daí, a atitude americana, tornando a normalização das relações dependente de um "regime change" que nunca veio a verificar-se.

Castro e os seus guerrilheiros, saídos da Sierra Maestra depois de uma saga político-militar que entusiasmou o romantismo de uma certa esquerda à escala global, cometeram o grave erro de reagir às recorrentes provocações americanas através de uma crescente dependência da União Soviética. A aventura da colocação de mísseis russos na ilha, em 1962, levou a um embargo americano que ainda hoje se mantém.

De regime libertador, a Cuba de Castro transformou-se num "exportador" de revoluções pelo mundo, aliás sem grande sucesso. Os "dois, três, muitos Vietnam" da retórica de Che Guevara (que, se fosse vivo, teria visto naquilo que o Vietnam se transformou) acabou por ser um imenso fracasso. Pressentido como executor de um "ousourcing" ditado por Moscovo, que durante décadas pagou as faturas de uma economia abafada pelo embargo, o regime de Fidel de Castro, que identificava a menor dissidência interna com uma traição pró-yankee, acabou por se converter num dos atores centrais da Guerra Fria.

No plano interno, Cuba é uma ditadura intolerante e repressiva. Jogou sempre com o sentimento de anti-americanismo como fator atenuador da leitura que o mundo podia fazer das condições em que o seu povo vive, passando as culpas do regime para as consequências do embargo - de facto, uma medida datada e sem sentido, unilateralmente imposta por Washington e que, bem vistas as coisas, acabou por facilitar fortemente o prolongamento do regime castrista. Cuba é hoje uma sociedade triste, vivendo numa penúria imensamente injusta para a felicidade possível das gerações que sofreram a sua tragédia geopolítica.

Muita água correrá ainda sob as pontes até que as coisas se normalizem entre Washington e Havana. Dos dois lados, os obstáculos à reconciliação são muito grandes e são expectáveis acidentes de percurso. De qualquer forma, a iniciativa papal que levou a este início de diálogo só pode ser saudada.

Comentários

Anônimo disse…
Olá Mário Machado, poderia me tirar uma dúvida?
Eu quero cursar Relações Internacionais, me apaixonei por esse curso, porém algo me incomoda, gosto de política, mas sou um tanto leiga no assunto, não conseguiria debater algum assunto por exemplo, minhas opiniões eu acho que são superficiais para uma futura estudante de RI.
Eu quero saber se ao entrar no curso eu devo ser expert em política, ou se o curso irá me dar base o suficiente pra firmar as minhas opiniões e me dar mais confiança em debates durante a graduação.
Desde já agradeço!
Mário Machado disse…
O fato de você ter auto-crítica já é meio caminho andado para o aprendizado, durante o curso há uma carga de leitura que vai despertando a curiosidade cientifica que te levará a conhecer bem o assunto.

Não precisa ser expert ao entrar.

Abraços,
Anônimo disse…
Muito obrigada!

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