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Libertação de presos políticos em Cuba e a inação brasileira

Estamos em uma época complicada, período eleitoral no qual tudo é dragado para a polêmica partidária, fica tudo polarizado. E nesse ambiente as críticas ao atual governo são encaradas como o endosso dos candidatos oposicionistas, uma balela, esse blog expressa a visão apartidária de seu autor que se reserva o direito ao pensamento livre e autônomo. Agora parece ser preciso explicar que apartidário não significa apolítico e nesse sentido minhas visões de mundo estão transparentes em meus textos, não tendo esconder o que penso por trás de uma pretensa isenção cientifica, como infelizmente alguns colegas fazem. Em ultima instância cada um de nós acaba por responder a própria consciência e a minha não permite que eu seja torpe em minhas opiniões. O único patrimônio que possuo que é inalienável é minha consciência.

Feita essa enorme digressão – parabenizo os que mantiveram a coragem de ler até aqui – sinto-me compelido a deixar claro (algo que já deveria dado a animação em flash ao lado direito da tela) eu não tenho a mínima simpatia pelo governo ditatorial, opressivo e assassino de Cuba e responsabilizo pessoalmente todos os membros do aparato de segurança do Estado cubano e seus líderes políticos diretamente pela morte do ativista e jornalista Zapata e responsabilizo subsidiariamente a todos os artistas, intelectuais, políticos que apóiam a esse regime decrépito, por que sabem das atrocidades e silenciam por que a ilusão utópica vence sua honestidade e compromisso com a realidade. Não há pretenso ganho social que justifique a supressão das liberdades e a existência de ditaduras. Fossem essas personagens que enumerei honestas teriam que ter a mesma paixão por Franco, Pinochet, Salazar e por ai vai, por que todos geraram algum tipo de ganho para suas populações.

Assim, foi perturbador para mim, ver o governo brasileiro, ou seja, o Estado brasileiro apoiar a esse regime. É só recorrer ao arquivo para perceber o quão imoral achei a declaração de Lula na ocasião do falecimento do ativista cubano. O governo e seus defensores se valeram a época dos principio da não-ingerência para justificar a inação brasileira.

Ora, para qualquer estudioso das relações internacionais essa desculpa – para lá de esfarrapada – não se sustenta a um exame mais pormenorizado já que se a condenação explicita não convinha em uma visita oficial, uma crítica velada (aquelas declarações que instam ao governo a ser sensível aos direitos humanos, reafirmando o compromisso do Brasil e etc.) e pressão diplomática seriam bem-vindas. Afinal o presidente Lula em sua posição de líder esquerdista carismático está em excelente posição para pressionar os Castro e seria uma enorme vitória para a diplomacia brasileira conseguir arrefecer os ânimos punitivos do regime castrista.

Mas, ao que parece o pacifismo protagônico do governo Lula se restringe ao longínquo Oriente-Médio, ao que parece Cuba é muito pouco para o Brasil, por que seria realista para a diplomacia brasileira intermediar a libertação desses prisioneiros, se fosse do interesse do Estado. Digo isso, por que como estar a ser amplamente divulgado pela imprensa o acordo negociado pelo governo da Espanha e pela Igreja Católica na figura do Cardeal Jaime Ortega.

Ora não é preciso ter doutorado em ciência política e Ph.D em relações internacionais para saber que o governo Lula é muito mais bem quisto em Havana do que a Igreja Católica. Afinal é desejo de todo regime comunista tornar as religiões proscritas.

Essa poderia ter sido uma prova inequívoca de liderança “gentil” do Brasil e uma prova do compromisso desse país com os direitos humanos em sua pretensa zona de influência, seria um ganho pessoal, também para o presidente e para seu chanceler e seu assessor especial todos estes gozam de excelentes relações em Havana.

Nosso silêncio e não envolvimento na questão e nossa crescente vocalização sobre o bloqueio americano e ingresso na OEA se juntam para dar uma mensagem nada lisonjeira sobre as relações exteriores do Brasil. Será que são os negócios, apenas, o norte de nossa diplomacia?

Não entendam que eu não creia que expandir o acesso aos mercados seja parte grande do interesse nacional brasileiro, mas não pode ser apenas isso. Mesmo por que certas alianças e declarações impensadas podem gerar prejuízos a imagem do Brasil junto a círculos consumidores de produtos de alto valor agregado (como design, por exemplo).

Abaixo deixo a cronologia feita pela agência de noticias AFP – Agence France-Presse (disponível aqui):
- FEVEREIRO:
23: Morre o preso opositor Orlando Zapata Tamayo depois de 85 dias de greve de fome, para pedir melhores condições carcerárias.
24: O jornalista e psicólogo dissidente Guillermo Fariñas inicia um jejum para exigir a libertação de 26 presos políticos enfermos.
25: A Conferência de Bispos Católicos de Cuba (COCC) pede ao Governo "medidas" para facilitar o diálogo e evitar que se repitam episódios "dolorosos" como o de Zapata.
- MARÇO:
11: O Parlamento Europeu lança dura condenação a Cuba pela morte de Zapata.
Fariñas é internado no hospital de Santa Clara (centro).
15: As Damas de Branco iniciam semana de marchas para marcar o sétimo aniversário da prisão de seus familiares, os 75 opositores.
16: Seguidores do Governo realizam atos hostis contra as Damas de Branco, no segundo dia da marcha.
29: A Espanha oferece a Fariñas um avião-ambulância para viajar a Madri.
30: Fariñas rejeita a oferta da Espanha.
- ABRIL:
11: Adeptos do Governo cercam as Damas de Branco depois de missa na igreja de Santa Rita e impedem sua marcha dominical pela Quinta Avenida, oeste de Havana.
18: As mulheres são de novo hostilizadas durante três horas ao deixarem o templo católico.
19: O cardeal Jaime Ortega defende o diálogo para resolver a situação.
25: Pelo terceiro domingo consecutivo, as mulheres são impedidas de protestar nas ruas. Um ato de repúdio contra elas é realizado durante sete horas.
26: Ortega envia carta ao presidente Raúl Castro demonstrando pesar pelo tratamento dado às Damas de Branco.
29: 88 opositores pedem a Fariñas levantar o jejum, mas ele recusa.
- MAIO:
2: O cardeal Ortega celebra missa em Santa Rita e revela que se reuniu com altos funcionários, que autorizaram as passeatas das Damas de Branco.
8: Dois emissários do cardeal vão ao hospital pedir a Fariñas confiança na mediação do clero.
19: Inédita reunião de Raúl Castro com Ortega sobre os presos políticos.
20: Ortega anuncia que o papel de interlocutor da Igreja abriu um novo período de relações com o Governo.
22: Fariñas se diz disposto a abandonar o jejum se forem libertados 10 ou 12 presos, e fixa um calendário para os demais.
- JUNHO:
1: O Governo traslada seis prisioneiros a penitenciárias situadas nos lugares próximos das casas onde vivem seus familiares.
12: As autoridades liberam o preso político mais enfermo, Ariel Sigler.
16-20: O chanceler do Vaticano, Dominique Mamberti, visita Cuba, encontrando-se com Raúl Castro e impulsionando o diálogo e a mediação da Igreja.
- JULHO:
5: Moratinos chega a Cuba para ajudar no diálogo.
7: A Igreja anuncia a libertação de 52 presos, cinco deles nas próximas horas e os demais, num período 

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