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Maldade com objetivos racionais

execuçãodeFoley O surgimento do Estado Islâmico (EI) e seu ambicioso plano de recriar o Califado como forma de governo pan-islâmico e seu contigente considerável de soldados nascidos em países ocidentais ilustram a dificuldade do combate ao extremismo.

O extremismo é difícil de lidar, é difícil de punir, principalmente pelas sociedades mais democráticas e abertas que tendem a favorecer a pluralidade de ideais e o livro exercício das diversas consciências religiosas. Numa comparação com redes de informática às sociedades abertas e democráticas possuem falhas exploráveis em sua arquitetura de segurança e arquivos maliciosos (discursos de ódio e extremistas) conseguem explorar essas falhas.

A imigração é fenômeno natural da espécie humana, que sempre busca por melhores condições para sua vida e para o sucesso de sua decendência, mas o ser humano também forma laços culturais fortes que de certa maneira são cerne de sua própria identidade e por vezes a relocação em novos países é acompanhada por um desejo de manter a cultura anterior. Esse fenômeno natural acaba sendo caldo de cultura bem explorado pelos radicais. Não é difícil de ver jovens que buscam laços fortes sendo cooptados para causas que julgam justas, ou você tem dúvida que o cruel algoz do jornalista americano James Foley, tem a firme convicção que seu ato contribui para uma vida melhor e mais justa para os seus?

As táticas do EI são particularmente violentas e cruéis, com crucificações de cristãos, decapitações, execuções sumárias de prisioneiros de guerra, dilapidação de mulheres, espancamento de mulheres por não aderirem aos seus códigos de vestimenta.

É fácil diante das imagens e da selvageria dessas táticas ser distraído pela pura maldade desses atos, mas há racionalidade, táticas, linhas de suprimento sofisticadas e financiamento que sustentam esse grupo que luta uma guerra de múltiplas fontes e com resistências dentro dos territórios conquistados.

A maldade do EI é calculada e serve a objetivos racionais concretos, eles lutam um modelo clássico de guerra para criação de um estado, isso difere o grupo de outros terroristas. O Estado Islâmico é muito parecido com o Talebã.

O Afeganistão nos ensinou algo. A queda do estado Talebã foi rápida e relativamente fácil, mas a derrota da ideologia e do grupo Talebã exige um trabalho de inteligência e de conquista de corações e mentes ao mesmo tempo em que se constrói um novo estado que não pode ser visto como peão de potências estrangeiras. Empreendimento hercúleo que tem produzido pouco sucesso.

O mundo precisa responder a ascensão do Estado Islâmico e seu radicalismo, muito bem conectado com redes sociais e referencias pop no seu “mix” de ferramentas de sedução de apoio. A prova da eficiência dessa comunicação em sociedades abertas e democráticas aproveitando questões e animosidades locais aos jovens imigrantes é que segundo o site Vox a mais pessoas com visão positiva do EI na França do que em Gaza. Mas, como o mundo irá reagir?

Uma estratégia parece estar emergindo que é capacitar os inimigos locais do Estado Islâmico, as vitimas de seus crimes, a lutarem para reconquistar suas regiões, como é o caso dos Curdos, mas se essa percepção minha for real será preciso ajudar Assad em sua luta pela manutenção do poder na Síria. E se assim for, será preciso cooperação Rússia-EUA.

Mas, não podemos esquecer que a forma de organização política no Oriente Médio é cravada na família como ente fundamental da sociedade, famílias que se juntam em clãs, que formam tribos e é preciso entender como esse panorama humano é afetado pelo Estado Islâmico, como ele afeta equilíbrios regionais, o que pensam os seus inimigos, quem são seus apoiadores, por isso é necessário enxergar a lógica da maldade e principalmente o estado das relações e lealdades políticas.

Como bem coloca o STRATFOR tratando da desintegração do Estado-Nação na região:

“The idea that Shia, Sunnis and Kurds can live together is not a fantasy. The fantasy is that the United States has the power or interest to re-create a Franco-British invention crafted out of the debris of the Ottoman Empire. Moreover, even if it had an interest, it is doubtful that the United States has the power to pacify Iraq and Syria. It could not impose calm in Lebanon. The triumph of the Islamic State would represent a serious problem for the United States, but no more than it would for the Shia, Kurds and other Sunnis. As in Lebanon, the multiplicity of factions creates a countervailing force that cripples those who reach too far.

There are two issues here. The first is how far the disintegration of nation-states will go in the Arab world. It seems to be underway in Libya, but it has not yet taken root elsewhere. It may be a political formation in the Sykes-Picot areas. Watching the Saudi peninsula will be most interesting. But the second issue is what regional powers will do about this process. Turkey, Iran, Israel and the Saudis cannot be comfortable with either this degree of fragmentation or the spread of more exotic groups. The rise of a Kurdish clan in Iraq would send tremors to the Turks and Iranians.

The historical precedent, of course, would be the rise of a new Ottoman attitude in Turkey that would inspire the Turks to move south and impose an acceptable order on the region. It is hard to see how Turkey would have the power to do this, plus if it created unity among the Arabs it would likely be because the memories of Turkish occupation still sting the Arab mind.

All of this aside, the point is that it is time to stop thinking about stabilizing Syria and Iraq and start thinking of a new dynamic outside of the artificial states that no longer function. To do this, we need to go back to Lebanon, the first state that disintegrated and the first place where clans took control of their own destiny because they had to. We are seeing the Lebanese model spread eastward. It will be interesting to see where else its spreads.”

Para combater o extremismo do IE será preciso que as sociedades democráticas ocidentais consigam encontrar maneiras de combater a disseminação do discurso de ódio e a atuação de elementos radicais. O que implica em reformas legais delicadas, em muitos casos, é preciso também que se ofereça narrativas atraentes que combatam o discurso radical. Tudo isso sem abrir mão dos valores que construíram essas sociedades, como controle constitucional do governo, rule of the law, liberdades individuais e civis.

Além disso, é claro é preciso enfrentar o Estado Islâmico em combate e reconquistar os territórios que eles dominam, mas respeitando a complexa arquitetura das relações humanas e políticas das diversas regiões.

O tabuleiro é complexo e o jogo é medido em vidas humanas e em sofrimento humano cuja memória estará presente nas próximas décadas, provavelmente por todo século XXI – afinal, famílias irão lembrar mortes e estupros e jovens poderão desejar vingar isso tudo – é impossível não pensar estarão os líderes mundiais estão a altura desse desafio?

Por hora a maldade está vencendo e obscurecendo o cenário e as análises dele. O diabo (metafórico ou real a depender da sua visão de mundo), meus caros, vive nos detalhes.

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