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Abismo entre gerações ou uma historieta sobre um “não evento”, por Francisco Seixas da Costa

telefonista Sempre que posso republico textos aqui que têm como intuito contribuir com o debate que pretendo nesse blog, a maior parte deles aborda questões que não domino com fluência. O texto de hoje, contudo, é dessas observações da vida que a falta de maiores talentos literários me impedem de formalizar com elegância e alguma graça como faz Francisco Seixas da Costa.

Lido diariamente com crianças e adolescentes em projetos de iniciação esportiva na modalidade basquetebol e ainda estou na casa dos 30 (e alguns) anos então não há grande abismo geracional, porém, já posso vislumbrar o chegar desse abismo, principalmente nas referências de cultura popular que nos ajudam a ilustrar conceitos e tornam nossas intervenções em eventos menos maçantes e nesse sentido posso dizer que entendo o que o embaixador relata, principalmente quando fala de observar o auditório a fim de saber se algum gracejo será bem acolhido, ou pelo menos entendido.

O "22 de Paio Pires"

Por Francisco Seixas da Costa

Há dias, num debate, tive uma ideia "peregrina": falar do "22 de Paio Pires". Havia uma boa razão para isso: estava a tomar a palavra perante um auditório da localidade de Paio Pires. Mas que diabo é o "22 de Paio Pires", perguntarão alguns? Pois é, leitor, foi pela certeza de que a esmagadora maioria do auditório de Paio Pires, ao qual eu falava, não fazia a mais leve ideia do que era o "22 de Paio Pires" que decidi não abordar o tema. Esta é, portanto, desculpem lá!, uma histórieta sobre um "não evento".

O "22 de Paio Pires" foi um divertidíssimo "sketch", interpretado por um ator de que a maioria dos leitores deste blogue também nunca ouviu falar: Humberto Madeira (1921-1971). Madeira tentava ligar para o número de telefone 22 da localidade de Paio Pires e, sequencialmente, saiam-lhe à linha uma diversidade de interlocutores errados, o que tornava a conversa hilariante.

Falo disto pela circunstância, que cada vez mais me acontece, de ter de cuidar, em conversas ou intervenções públicas, em escolher referências que possam ser entendidas pela generalidade das pessoas presentes. Sei que isto é claramente uma questão etária, mas confesso que começa a ser angustiante ter de olhar em volta, medindo o conhecimento médio do auditório, antes de citar um facto, um autor ou fazer uma graçola com base numa citação.

Tempos atrás, comecei a contar num grupo de jovem colaboradores uma história relacionada com Pedro Moutinho, uma das mais populares figuras da rádio dos anos 40 a 60. Conheci Moutinho bastante bem, já depois do 25 de abril, em circunstâncias curiosas - mas só relevantes em função do conhecimento do passado de Pedro Moutinho. Ele deixara de ser locutor e fora mesmo algo hostilizado pelo regime democrático. A certo passo da minha narrativa, pela cara dos presentes, dei-me conta de que estava a fazer verdadeira "geometria no espaço". Ninguém ouvira alguma vez falar de Pedro Moutinho, pelo que a minha historieta pessoal com este último não tinha, aos seus ouvidos, a menor relevância. Os sorrisos simpáticos que dedicavam ao que lhes dizia relevavam mais de uma piedosa tolerância do que de uma genuína atenção. Aprendi a lição.

Talvez por isso, abstive-me de contar o episódio do "22 de Paio Pires". Mesmo em Paio Pires.

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