Pular para o conteúdo principal

IPEA, estupro: Uma pesquisa aterradora

lagrimas1

UPDATE 4 DE ABRIL: O diretor da Área Social do IPEA pediu exoneração por que os dados da pesquisa estavam GROSSEIRAMENTE errados. Como pode ser visto nessa nota da Folha de São Paulo. A verdadeira falsificação dos dados, contudo, não diminui a importância do combate ao hediondo, vil e bárbaro crime do Estupro.

----------

Eu, tal qual uma boa parte da população brasileira, fiquei embasbacado, em choque mesmo, com os resultados encontrados pela pesquisa: “Tolerância social à violência contra as mulheres”, principalmente com o percentual amplamente divulgado de “concordância” que vestimenta e comportamento facilitam e justificam o estupro.

A pesquisa é parte de um esforço continuo do IPEA para “captar a percepção das famílias acerca das políticas públicas implementadas pelo Estado, independentemente destas serem usuárias ou não dos seus programas e ações” e possui na formulação de seu texto de análise uma linguagem surpreendentemente, para mim, próxima a dos ativistas, mas a principio esse cacoete ideológico não interfere nos resultados.

Os números sobre a tolerância a violência sexual receberam, com justiça, mais atenção, mas há bons números no informe publicado no que tange a violência doméstica em todos os quesitos o que se vê é uma ampla maioria dos brasileiros considerando inaceitável e indesculpável qualquer tipo de violência doméstica, abusos físicos e morais. E isso é algo excelente, quanto mais saudáveis forem nossas famílias melhor é a vida social.

Mas, os resultados sobre a conduta pessoal das mulheres e o estupro denotam que a matéria merece maior reflexão por parte dos brasileiros (homens e mulheres). Sou quase um randiano na medida que não confio em classificar pessoas e esperar certos comportamentos, por exemplo, se você é negro é obrigado a pensar de tal maneira ou é traidor do movimento, mas fui surpreendido pela concordância de mulheres as frases “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

Levei um verdadeiro safanão intelectual de uma amiga querida por ceder a essa coletivização, ela não disse, mas achou minha premissa de que as mulheres seriam contra isso estúpida senão babaca, mas enfim sempre é bom aprender novas coisas. Indivíduos são complexos e suas tendências comportamentais refletem isso, deveria ter isso sempre em mente.

A idéia de culpar a vítima por um crime tão absurdo como o estupro é francamente nojenta, julgava que isso era superado. Acho, sim, que certos “macetes” diminuem a exposição ao risco como os mesmos que usamos pra evitar assaltos tais como evitar estacionar em lugares ermos, andar em grupos, contudo não sei se são efetivos pra evitar estupros, por que o predadores sexuais se disfarçam entre nós, as vezes são os próprios pais, tios, amigos, namorados. Nesse sentido, lembrei da afirmação estarrecedora de Thomas Hayden, co-autor de “Sex and War: How Biology Explains Warfare and Terrorism and Offers a Path to a Safer World” feita a Veja, quando perguntado sobre quando começaram os estupros em tempos de guerra:

“A resposta é bem deprimente. Todas as evidências da arqueologia e da antropologia indicam que o estupro tenha começado junto com a guerra. O estupro era, inclusive, um dos principais motivadores das primeiras guerras. Nas estruturas sociais rígidas das primeiras “tribos” da Pré-História, eram os líderes quem mantinham relações sexuais com a maioria das mulheres do grupo. E os jovens de pequenas tribos só podiam procriar quando “conquistavam” fêmeas de outras tribos em batalhas. Então, as primeiras guerras foram, na verdade, estupros coletivos. A história vai ainda mais longe se pensarmos em evolução. Bem poucos animais se reúnem para matar membros de sua própria espécie como os humanos. Mas nosso parente genético mais próximo, o chimpanzé, guerreia e estupra. Isso sugere que a combinação guerra+estupro data dos primeiros dias de nossa espécie”.

É fácil perder a fé na humanidade, mas o fato do assunto ter gerado um debate acalorado e a compreensão da necessidade de punir com rigor o estuprador e promover ações que previnam o estupro, mas sem essa estupidez imbecil de culpar a vítima, servem de fraco alento.

Os quesitos usados na pesquisa podem ter induzido alguns a responder e de fato se somam quem concorda parcialmente com integralmente e isso pode ter inflado os dados, mas não há pesquisas anteriores para que possamos comparar. Contudo, a verdade é que há predadores a solta e a falta de recursos investigativos (e em alguns casos até de interesse) e de leis penais (e de execução penal) que mantenham esses monstros fora da rua, servem de catalisadores pra criação de novos monstros. Vivemos num país violento demais e isso está causando deformações em nossa sociedade. As mulheres não estão seguras, na verdade ninguém está e cabe a nós resolver isso.

Uma conclusão do estudo parece contrariar o que os militantes costumeiramente asseveram sobre o comportamento da classe média, que seria preconceituosa e retrógrada segundo a caracterização que fazem, é claro. Falo do seguinte parágrafo no qual se lê:

“Não há características populacionais que determinem intensamente uma postura mais tolerante à violência, mas os primeiros resultados apontam que morar em metrópoles, nas regiões mais ricas do país, Sul e Sudeste, ter escolaridade mais alta e ser mais jovem são atributos que reforçam a probabilidade de uma adesão a valores mais igualitários, de respeito à diversidade, e de uma postura mais intolerante em relação à violência contra as mulheres”.

Um passo foi dado, conhecemos alguns problemas e como pensam em alguns assuntos os brasileiros, mas o diabo está nos detalhes, e nesse caso a maioria vê e concorda com o problema, mas as soluções se fragmentam pelo espectro político e pelas correntes de opinião, alguns pretendem que a solução está na cultura e educação, outros na falta de segurança pública e punições brandas, outros como a pesquisa mostra acham que roupas recatadas evitam estupro e enquanto nossos políticos e lideranças sociais não conseguirem construir consensos ou pelo menos maiorias consideráveis o debate se dará no campo da idéias e ideologias e nada será feito para que os números de estupros caiam, espero estar errado nesse particular.

É, o estupro, um crime tão vil que até mesmo criminosos perigosos parecem ter ojeriza (uma pesquisa no google sobre o tema mostrará dezenas de vídeos e matérias que corroboram a tese) a essa atitude animalesca, então por que ainda há quem diga que a culpa é da vitima? Sério, não consigo entender.

Comentários

Cerveja Esmalte disse…
Parabéns meu amigo! Bem escrito, coeso e com argumentos incontestáveis (infelizmente).
Divulgarei!
Bjinhos da ale
www.cervejaesmalte.com.br
Cerveja Esmalte disse…
Parabéns meu amigo! Bem escrito, coeso e com argumentos incontestáveis (infelizmente).
Divulgarei!
Bjinhos da ale
www.cervejaesmalte.com.br

Postagens mais visitadas deste blog

Lição Chinesa

O governo chinês é importante parceiro comercial no continente africano. Comprando, basicamente, commodities e ofertando bens e serviços, além de empréstimos para projetos de desenvolvimento. Esse arranjo gera para o lado chinês maior influência global e abertura de novos mercados. Pelo lado africano oferece acesso a bens, serviços e empregos.  Trocar commodities por bens de maior valor agregado causa deterioração dos termos de troca, isto é, a diferença entre o valor que exportado e o valor do que é importado. O que naturalmente gera endividamento. Diante desse cenário, o governo chinês usa sua demanda interna e capacidade de importação via acordos comerciais setoriais que aproveitam vantagens comparativas locais dando escala na produção de itens desejados pela China e garantindo mercado para esses produtos.   O que paulatinamente contribui para equilibrar a balança comercial com essas nações africanas ao mesmo tempo que garante abastecimento para a China. Em tempos de ...

A Inflação nas camadas de renda mais mais baixas

O apresentador anuncia um índice de inflação. O economista entrevistado explica quais foram os vilões da inflação daquele mês, geralmente no setor de hortifrúti de um supermercado. O índice é tido como “bom” e dizem que a inflação está controlada, mas você sabe que tudo que você compra subiu de preço e pensa será que estão mentindo para mim? Como são feitos esses índices de inflação? Existem vários índices de inflação calculados por diversas entidades e a diferença entre eles se dá no que os economistas e estatísticos chamam de cesta de consumo, isto é, o que as famílias compram e a proporção desses gastos em termos da renda total da família. Por exemplo, se a família gasta mais da renda dela com aluguel, um aumento desse custo tem impacto maior que outros preços na composição do índice. A inflação, também, depende do nível de renda. O IPEA, mediu que no acumulado do ano, até setembro de 2020, a inflação na faixa de renda muito baixa (renda familiar menor que R$ 1.650,50, por mês) fo...

A apuração eleitoral e o observador das Relações Internacionai

O Colégio Eleitoral americano e a apuração dos votos, nos parecem muito complicadas e pensamos: no Brasil é bem melhor. Nós olhamos o mundo pelas lentes de nossa cultura e isso afeta o julgamento que fazemos de diversas situações e realidades internacionais. Muitos conflitos em negócios internacionais têm nesse fato sua origem.   A natureza federalista, com ênfase, estadual dos EUA é muito diferente do nosso federalismo e há complexas raízes históricas para isso. Boa parte do debate constitucional original daquele país gira em torno dos Direitos dos Estados. Nosso sistema tem um caráter centralizado, que ignora as nuances regionais em troca de processos uniformizados. A informatização do voto trouxe de fato, muita celeridade ao processo, mas a adoção desse regime não foi feita com um amplo debate nacional e são comuns as desconfianças sobre a integridade desse modo de fazer eleições. Muitas opiniões publicadas sobre o sistema eleitoral de lá e de cá são apenas as lentes da fa...