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Crimeia: alguns pensamentos

We get so close, near enough to fight
When a Russian gets me in his sights
He pulls the trigger, and I feel the blow
A burst of rounds take my horse below

And as I lay there gazing at the sky
My body's numb and my throat is dry
And as I lay forgotten and alone
Without a tear I draw my parting groan

The trooper, Iron Maiden*

fotoguerradacrimeia A Guerra da Crimeia, entre 1853 e 1856, sepultou o sistema do Concerto Europeu de governança que consistia num sistema projetado para manter uma hegemonia coletiva no continente europeu e que se estendia as suas colônias.

A confrontação na Crimeia trouxe conseqüências dramáticas em todos os participantes e serviu para exarcerbar os nacionalismos que provocaram uma corrida armamentista e culminaram na Primeira Grande Guerra.

Entre outras conseqüências da Guerra da Crimeia está o fim da servidão na Rússia e a percepção de que o exército russo estava desatualizado em táticas e equipamentos, uma constatação aterradora.

A Guerra teve entre seus motivadores uma componente religiosa que restava numa longa tensão entre o Império Russo e o Império Otomano sobre o tratamento de cristãos na ‘Terra Santa’, em que os russos se colocavam com guardiões dos interesses dos cristãos ortodoxos.

A forte religiosidade russa tão bem retratada na rica literatura russa, em especial, da segunda metade do século XIX e talvez “Os irmãos Karamazov” seja o melhor exemplo disso, ficou latente, escondida sob o ateísmo oficialista dos tempos soviéticos, mas os engenheiros sociais da ditadura do proletariado não conseguiram em 70 anos do experimento cruel do socialismo mudar drasticamente o caráter russo, talvez tenham até atrasado a evolução natural desse caráter.

A identidade russa é bem calcada no aspecto ortodoxo, menos como religião oficial, mais como expressão da personalidade russa e do que define sua existência eurasiana. E é esse neo-eurasianismo está bem presente nos cálculos estratégicos do Kremlin e tem grande impacto pessoal no Putin.

E um dos principais ideólogos desse neo-eurasianismo é Alexander Dugin e devo admitir que até recentemente eu era alheio a seus estudos e sua influência nas esferas decisivas do governo russo, se estivesse a par disso, teria sido muito mais fácil antever os passos russos na luta pela narrativa da crise ucraniana.

Dugin é um dos idealizadores e propagadores do foco dado a participação de grupos de extrema-direita na derrocada de Viktor Yanukovich visão difundida entre os alter-mundistas que rapidamente dão circulação a exagerada hipótese que o novo governo ucraniano é o Reich das estepes.

É claro, que governos, partidos e seus ideólogos e marqueteiros estão sempre tentando emplacar suas narrativas e assim galvanizar as correntes de opinião em seu favor, isso é a base do processo de convencimento político e claro também pode ser feito com táticas menos óbvias e éticas.

Uma denuncia que se faz constantemente a mídia ocidental e aos governos dessa região é a tendência de criarem narrativas em que os seus aliados são a representação da virtude e os opositores fonte de todo mal. Abaixo reproduzo trecho de entrevista de Dugin em que ele ao denunciar essa prática, sutilmente a reverte e coloca seu lado como fonte de toda virtude. É quase uma aula sobre a necessidade de discernimento e reflexão sobre fontes que sempre advirto.

“Russia doesn’t have an imperialist agenda. Moscow respects sovereignty and wouldn’t interfere in the domestic politics of any other country. And it is an honest and good politics. We witness this even in Ukraine. We see much more EU-politicians and even US-politicians and diplomats travelling to Kiev to support the opposition than we see Russian politicians supporting Yanukovych in Ukraine. We shouldn’t forget that Russia doesn’t have any hegemonial interests in Europe, but the Americans have. Frankly speaking, the European Union is not a genuine European entity – it is an imperialist transatlantic project. It doesn’t serve the interests of the Europeans but the interests of the Washington administration. The “European Union” is in reality anti-European. And the “Euro-Maidan” is in reality “anti-Euro-Maidan.” The violent neo-Nazis in Ukraine are neither “nationalist” nor “patriotic” nor “European” — they are purely American proxies. The same for the homosexual rights groups and organizations like FEMEN or left wing liberal protest groups.”

Chega a ser genial ele denunciar os grupos de extrema esquerda que agem na Rússia, enquanto agrada aos grupos de esquerda ocidental em sua crítica dirigida a Washington e Bruxelas. Quando faz isso ele cria um meio de conciliar a defesa de Putin na Política Externa e internamente se arrogar o monopólio da defesa dos direitos das minorias.

Essa luta pelo controle da narrativa se dá principalmente na imprensa e é interessante notar que foi justamente na Guerra da Crimeia que nasceu o fotojornalismo de guerra e a cobertura em tempo real das guerras e isso impactou o resultado do conflito.

A atual crise na Crimeia e sua volta ao seio da mãe Rússia ainda está longe de ser resolvida e há muitos interesses em jogo, e nesse ‘fog of war’ tentar mapear as narrativas e as forças que as impulsionam talvez seja o caminho para tentar prever os rumos da crise e sua solução.

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* Música baseada no poema épico “The charge of litgh brigade” que retrata uma batalha da Guerra da Crimeia.

Foto de Roger Fenton, 29 de fevereiro de 1855. Fonte aqui.

Votem COISAS INTERNACIONAIS na segunda fase do TOPBLOGS 2013/2014

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