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O lugar da Ibero - América na Política Externa Brasileira, por Francisco Seixas da Costa

Sou fã confesso do estilo agradável da escrita do diplomata português Francisco Seixa da Costa que no texto que reproduzo abaixo (tal qual o original e autorizado pelo autor) ele aborda o lugar marginal que o espaço Iberoamericano ocupa na Política Externa Brasileira.

A questão da chamada identidade “latino-americana” sempre me pareceu um elemento retórico repetido ad nauseaum, mas sem nenhum estofo conceitual que o consubstancie. Talvez seja até questão de pesquisar e escrever um texto meu sobre o tema e abro o espaço a quem quiser se manifestar sobre a questão, contudo não vou mais me alongar nessa que era para ter sido uma breve apresentação ao texto de Francisco Seixas da Costa.

Ibero-américa

Por Francisco Seixa da Costa

A ausência da presidente Dilma Roussef da cimeira/cúpula/cumbre ibero-americana deve ser avaliada com alguma atenção. E, estranhamente, não vi ninguém atentar nisso por cá.

O Brasil é um país que nunca viveu muito bem a "cultura" ibero-americana. Porquê? Porque sempre achou, sem o dizer, que este exercício está desequilibrado em favor do polo hispânico, porque a dimensão lusófona no seio desta estrutura não tem a dimensão que o Brasil considera à altura da importância que a si próprio se atribui. E tem toda a razão nisto.

Neste exercício ibero-americano, diga-se o que se disser, o polo hispânico prevalece, a Espanha surge como um país tutelar. Com exceção do México, a Espanha é maior do que todas as suas antigas colónias americanas. E isso tem importância na "autoridade" com que Madrid se afirma, a qual é reforçada pela constante presença do seu rei, que não "roda" como os restantes mandatários. Noto que esta terá sido, salvo erro, a primeira cimeira do género a que Juan Carlos faltou, neste caso por razões de saúde.

(Conta-se uma história divertida, ocorrida numa anterior cimeira, ainda antes do famoso "por qué no te callas!". O rei espanhol terá, no decurso de um debate, deixado uma nota crítica sobre o grau de democraticidade de uma eleição em que Hugo Chavez foi eleito. Este não "se ficou" e replicou: "Juanito, quando te presentares a una elección me llama, por que yo voy a votar por ti").

Voltemos ao Brasil. O conceito de "América Latina", para quem o não saiba, é um tabu na linguagem diplomática brasileira. Não se encontrará nunca um único diplomata brasileiro a utilizá-lo. O Brasil usa o conceito de América do Sul e as iniciativas em que mais abertamente se empenha (Unasul, Mercosul) não incluem geralmente a América Central, o Caribe e, naturalmente, o México (que é um país da América do Norte). Não quero aqui elaborar sobre as razões por que isso acontece, muito embora elas sejam óbvias. Quero apenas deixar claro que tem de se ter isto em conta para melhor perceber esta "incomodidade" do Brasil no exercício ibero-americano. E a razão por que lhe não atribui uma grande importância.

Dito isto, não será possível fazer nada para suscitar mais a atenção do Brasil para este quadro bilateral de entendimento, ao qual Portugal atribui (e bem!) um real valor? Claro que sim. O único modo de o conseguir é tentarmos gizar com o Brasil uma coordenação de posições, a montante destas cimeiras, transportando para o seu seio algumas vertentes que ambos partilhamos e em que temos uma experiência própria incontestável, para o bem e para o mal. A palavra África não diz nada?

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