Pular para o conteúdo principal

Espionagem internacional

“É isso aí, Dilma: num dia você é Palocci, no outro Francenildo.”

Flávio Morgenstern

dilmaobama

Em novos desdobramentos do escândalo de vigilância massiva por parte da National Security Agency (Agência de Segurança Nacional, do EUA) – NSA foi revelado que os presidentes de Brasil e México e suas equipes de governo foram alvos de espionagem e que os agentes de inteligência estrangeiros tiveram acesso aos meios eletrônicos de comunicação dos dois governos.

A espionagem é parte integrante da vida das nações, desde muito antes do advento do Estado-Nação nos moldes Vestfalianos que hoje conhecemos, de fato o grande estrategista chinês Sun Tzu em sua celebrada obra a “A arte da guerra” dedica um capitulo inteiro sobre o uso desse recurso que ele classifica como “um dos tesouros do soberano” e vai além em seu elogio a prática da espionagem: “É engenhoso! Verdadeiramente engenhoso! Não há lugar que a espionagem não tenha sido aplicada”.

Muito embora, a prática da espionagem seja realidade do sistema internacional ser pego no ato, ainda mais de uma nação aliada é extremamente embaraçoso, por que explicita ao público em geral a realidade de que Estados são desconfiados quanto aos planos e motivações dos aliados, outra consequência é minar as estratégias de soft power ou smart power ao alienar as correntes de opinião pública favoráveis ao estado que espiona.

Ao se tornar público e notório que o Brasil foi espionado, retira-se do governo muito de sua margem de manobra, posto que uma política simpática aos EUA (mesmo que pautada em Interesse Nacional), ou de cooperação passará a ser vista como submissão, ou ainda como resultado de algum tipo de segredo escuso obtido pela vigilância. E no caso do partido que atualmente ocupa o Planalto, qualquer reação que não seja pública e percebida como dura corre o risco de alienar o apoio da base do partido, o que a pouco mais de um ano das eleições seria péssima notícia para presidente Dilma.

Nenhum país vai a guerra com a maior máquina militar jamais vista pela humanidade (não é invencível, mas é formidável) por que foi espionado. A resposta brasileira deve vir em forma de protecionismo (como fizeram os franceses, por exemplo) e com uma aura de superioridade moral. No campo público o governo brasileiro exigiu explicações oficiais por parte da Casa Branca e se aventa a suspensão de viagem que a presidente faria aos EUA.

Sun Tzu assevera na obra citada acima: “É fundamental desmascarar os agentes inimigos que te espiam”, recomendação que se torna cada vez mais difícil a medida que evoluem as técnicas de vigilância remota e de invasão de sistemas de computador.

Esse episódio pode ser uma oportunidade para reformar as práticas de segurança da informação do governo federal, por que restou provado que as medidas em uso são inócuas e a própria mandatária foi espionada, o que é inaceitável. E suscita a pergunta onde está a contra-inteligência brasileira?

Parafraseando Alexis de Tocqueville, os problemas da tecnologia se resolvem com mais tecnologia, isto é, se o governo pretende evitar que novas violações de suas comunicações ocorram será preciso além de instaurar uma verdadeira cultura de proteção de dados, também capacidade técnica para tentar coibir a ação de governos estrangeiros e outros grupos.

Nesse escândalo de espionagem fomos pegos de calças curtas, juntamente com os americanos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lição Chinesa

O governo chinês é importante parceiro comercial no continente africano. Comprando, basicamente, commodities e ofertando bens e serviços, além de empréstimos para projetos de desenvolvimento. Esse arranjo gera para o lado chinês maior influência global e abertura de novos mercados. Pelo lado africano oferece acesso a bens, serviços e empregos.  Trocar commodities por bens de maior valor agregado causa deterioração dos termos de troca, isto é, a diferença entre o valor que exportado e o valor do que é importado. O que naturalmente gera endividamento. Diante desse cenário, o governo chinês usa sua demanda interna e capacidade de importação via acordos comerciais setoriais que aproveitam vantagens comparativas locais dando escala na produção de itens desejados pela China e garantindo mercado para esses produtos.   O que paulatinamente contribui para equilibrar a balança comercial com essas nações africanas ao mesmo tempo que garante abastecimento para a China. Em tempos de ...

A Inflação nas camadas de renda mais mais baixas

O apresentador anuncia um índice de inflação. O economista entrevistado explica quais foram os vilões da inflação daquele mês, geralmente no setor de hortifrúti de um supermercado. O índice é tido como “bom” e dizem que a inflação está controlada, mas você sabe que tudo que você compra subiu de preço e pensa será que estão mentindo para mim? Como são feitos esses índices de inflação? Existem vários índices de inflação calculados por diversas entidades e a diferença entre eles se dá no que os economistas e estatísticos chamam de cesta de consumo, isto é, o que as famílias compram e a proporção desses gastos em termos da renda total da família. Por exemplo, se a família gasta mais da renda dela com aluguel, um aumento desse custo tem impacto maior que outros preços na composição do índice. A inflação, também, depende do nível de renda. O IPEA, mediu que no acumulado do ano, até setembro de 2020, a inflação na faixa de renda muito baixa (renda familiar menor que R$ 1.650,50, por mês) fo...

A apuração eleitoral e o observador das Relações Internacionai

O Colégio Eleitoral americano e a apuração dos votos, nos parecem muito complicadas e pensamos: no Brasil é bem melhor. Nós olhamos o mundo pelas lentes de nossa cultura e isso afeta o julgamento que fazemos de diversas situações e realidades internacionais. Muitos conflitos em negócios internacionais têm nesse fato sua origem.   A natureza federalista, com ênfase, estadual dos EUA é muito diferente do nosso federalismo e há complexas raízes históricas para isso. Boa parte do debate constitucional original daquele país gira em torno dos Direitos dos Estados. Nosso sistema tem um caráter centralizado, que ignora as nuances regionais em troca de processos uniformizados. A informatização do voto trouxe de fato, muita celeridade ao processo, mas a adoção desse regime não foi feita com um amplo debate nacional e são comuns as desconfianças sobre a integridade desse modo de fazer eleições. Muitas opiniões publicadas sobre o sistema eleitoral de lá e de cá são apenas as lentes da fa...