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Ciência sem Fronteiras e as humanidades

Há uma interessante discussão correndo no cerne da intelectualidade brasileira, que é o debate suscitado pela liminar cassada que incluía as ciências humanas e sociais no rol das disciplinas aptas a receberem bolsas de estudo no exterior pelo programa Ciência Sem Fronteiras, do MEC.

Em minha atividade profissional de consultor acabo por realizar extensos estudos de mercado quando colaboro em projetos de internacionalização, isto quer dizer que sei o valor de conhecer os mercados e agradar a gostos e preferências dos consumidores – encantar esses consumidores, como diriam os profissionais de marketing – esse processo é complexo e se pode alcançar o consumidor ouvindo seus desejos, ou se pode surpreende-lo com algo que ele nunca soube que queria, nada mais que encontrar meios de operacionalizar a famosa Lei de Say.

Tendo isso em mente nada mais natural que supor que esse anseio em atender o desejo do consumidor permearia a minha escrita nessa página, contudo, o que percebo é que o “consumidor” desse blog vem a essa página em busca da minha opinião e análise dos fatos. Ou seja, não vendo o bem-estar de vocês ao ler, mas oferto minha opinião e num mundo perfeito essa opinião seria relevante no processo de formação da opinião de vocês.

E a opinião que tenho sobre o assunto que enseja esse texto, pelo que pude perceber devido a um debate animado na Page desse blog no Facebook dará “trabalho”, mas é o que penso sobre o assunto e seria muito covarde e pouco honesto falsear minha consciência em busca de uma efêmera aprovação corporativista.

O programa Ciência Sem Fronteiras foi pensando para diante de um orçamento finito e exíguo priorizar as ciências naturais e exatas, ou seja, ofertando apenas para os cientistas desses campos do saber na concessão de bolsas de estudo no estrangeiro que visam enriquecer o capital humano nacional.

Qualquer estudante de Relações Internacionais é capaz de elencar a falta de inovação como fator que dificulta a inserção internacional das empresas brasileiras e sua competitividade. E, mais é clamor freqüente na imprensa e nos meios acadêmicos que se busque maneiras de gerar empregos com melhor rendimento por meio da agregação de valor.

A maneira de conseguir esses objetivos é com ciência, é com tecnologia de ponta, é com pesquisas que levem a patentes e patentes que se tornem produtos ou serviços disponíveis aos consumidores.

Por exemplo, se algum grupo de cientistas brasileiros descobrir uma vacina ou tratamento rápido e eficaz para a Dengue terá produzido um avanço fabuloso para a sociedade brasileira, aliás, para todas as sociedades que habitam zonas tropicais.

Meus colegas das humanidades se dividem acerca do assunto, alguns apontam o que seria a prevalência de modelos de desenvolvimentos economicistas e opacos que com a exclusão das ciências sociais estariam privilegiando entes hegemônicos, claro tudo escrito na linguagem acadêmica das ciências sociais, cada vez mais parecida com a linguagem militante de certas correntes políticas e isso não ocorre por acaso, mas é debate para outro dia. É exemplar dessa tendência o artigo escrito por Alyson Freire, na conceituada Carta Potiguar.

Outros colegas reclamam que a exclusão limita mais ainda as oportunidades do tão necessário intercâmbio para alunos de Relações Internacionais e que a exclusão significaria um desprestigio das humanidades na sempre acirrada disputa por orçamento. A frustração desses colegas é real e legitima.

Contudo, ao analisar a questão de um ponto de vista mais macro, não ouso dizer estratégico, por que planejamento estratégico no governo federal costuma significar planejar execução orçamentária do próximo ano, carecendo de real planejamento de longo prazo, e não é por falta de capacidade humana na esplanada, mas os políticos parecem gostar de “puxadinhos”. Do ponto de vista macro a prioridade é evitar a propalada desindustrialização e não há estratégia que vise conter essa tendência  que possa prescindir das formações “tecnocratas” – como gostam de dizer os cientistas sociais, com um quê de desdém – que habilitem a criação de valor agregado e de inovação no Brasil.

Portanto, mesmo que seja um corte na minha própria carne, acho louvável que se dê prioridade ao que é prioritário (se me permitirem essa tautologia). Mesmo pairando dúvidas sobre a eficácia desse programa Ciência Sem Fronteiras, a preferência pelas ciências naturais e exatas pode significar que novas ações para suprir o déficit de profissionais e de patentes do Brasil será abordado no futuro, talvez de maneira mais integrada usando os variados instrumentos a disposição do governo, embora nesse particular eu mantenha meu ceticismo.

Para arrematar essas elucubrações, reitero uma provocação feita pelo diplomata, professor e iconoclasta Paulo Roberto de Almeida. No final é uma questão entre gerar riqueza ou gerar déficit público.

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