Pelo título eu sei que os leitores já esperam que eu faça minhas costumeiras críticas a política externa brasileira ou que eu faça alguma crítica ácida até aos novos escândalos que ameaçam mais um ministro do governo Dilma. Mas, dessa vez o texto tem um caráter diferente. Acabo de assistir um documentário que por motivos que não compreendo perfeitamente fiquei tocado, emocionado mesmo.
O documentário se chama “Guerreiros Caiapós” e foi exibido no canal pago Discovery HD e retrata os desafios mentais e físicos de dois jovens Caiapós em sua jornada para se tornarem guerreiros. Não foi bem a prova de coragem do ritual de enfrentar vespas venenosas e por meio da dor que suportam, se fortalecerem e espiritualmente absorverem os poderes desse inseto que me emocionou, mas os motivos pessoais dos dois jovens.
Seu desejo era muito parecido com o de qualquer homem, isto é, defender o estilo de vida de seus ancestrais, honrar seu pai, ser um exemplo para seus filhos e ter admiração de sua esposa. Nesse nosso mundo moderno em que a noção de ser homem tem se erodido e tantos acreditam numa noção hedonista que ser homem é ser um mero ‘reprodutor’ sempre em busca de fêmeas e incapaz de fazer conexões profundas e mais ainda nesses dias em que a responsabilidade assusta foi verdadeiramente emocionante ver jovens comprometidos na essência de ser um homem, pelo menos a meu ver.
Não estou defendendo um retorno a uma suposta pureza ancestral, mas sim apontando o óbvio vivemos dias difíceis para formar uma identidade masculina saudável, que não seja misógina, ou seja, mantendo a noção de responsabilidade pelo bem estar da família das gerações passadas sem o autoritarismo do modelo patriarcal de família.
Claro que não era esse debate que os produtores do documentário pretendiam lançar o plano de fundo do documentário é a construção da Usina de Belo Monte, por sinal é o leilão da usina que gera nos anciões da tribo acompanhada a necessidade de preparar guerreiros para combater a instalação da usina.
Devo confessar que minhas restrições a usina são mais baseadas na forma como o leilão se deu e nas suspeitas que tenho sobre o processo e seu custo para o tesouro, do que na devastação, não que eu seja contrário a preservação da floresta, mas por que não tenho certeza dos números apresentados tanto pelos que defendem quanto pelos que discordam.
É sempre interessante aquele modelo em que os vários Brasis se chocam num só país, pode ser quando se repara nos moleques indígenas jogando bola como os moleques na porta da minha casa, ou quando um dos anciões daquela tribo assiste ao mesmo noticiário em que eu vi as noticias sobre a usina. E, por mais clichê que isso possa parecer nesses momentos é impossível não sentir que apesar de tudo que nos separa há algo que no unifica, algo que nos faz brasileiros.
Poderoso é sentimento de unidade e de nação, tão poderoso que é usado em todo tipo de causa e provoca uma perigosa catarata política que nos obstrui a visão, ou mesmo nos cega completamente. E por isso mesmo faço tantas advertências contra o nacionalismo.
Imagino que a essa altura quem resistiu a esse tortuoso texto se pergunta o que eu quero com ele, e o que tudo isso tem a ver com relações internacionais? Bom, meus caros talvez a pergunta mais difícil de responder quando se estar a formular, ou analisar uma política externa é justamente saber qual é o interesse nacional. E não há escapatória definir um interesse nacional é arbitrar entre interesses tão difusos quanto os dos habitantes da floresta ou de uma cidade pequena do sudeste. E muitos outros mais poderosos, mais populares, etc.
E no final das contas os guerreiros Caiapós e um blogueiro cheio de dúvidas são um pouquinho de Brasil
Comentários