Pular para o conteúdo principal

12 meses em 12 textos: Mês de Julho

Continuando a série retrospectiva “12 meses em 12 textos”. Julho foi um mês agitado ainda em clima de copa do mundo, mas que viu uma escalada na tensão entre Venezuela e Colômbia. Felizmente essa disputa ficou apenas no campo da retórica.

O texto selecionado é uma reflexão sobre a profissão em relações internacionais. O texto foi originalmente publicado em 25 de julho, aqui.

Relações Internacionais como profissão. Ofício e arte severa

Não é raro que interessados em cursar relações internacionais ou mesmo aqueles já estudantes entrem em contato comigo em busca de informações sobre o curso, sobre o mercado de trabalho e vez ou outra até a indiscreta pergunta sobre salários aparece. Além disso, há uma inquietante dúvida acerca do que faz um profissional de relações internacionais, me entendam é um pergunta válida, por isso mesmo a respondo, já chequei até mesmo a escrever o porquê em minha visão alguém deve contratar um bacharel em relações internacionais.

Eu compreendo que há da parte de quem ainda não cursou e nem conhece alguma empresa que tenha um bacharel em seus quadros queira saber como é a rotina diária e para esses minha resposta é por vezes insatisfatória (assim eu presumo já que muito poucos dão feedback para as minhas respostas, embora eu gaste meu tempo e de bom grado os responda, mas não posso controlar isso) já que não apresento um esquema, um layout de produção do que seria o dia-a-dia de um bacharel em relações internacionais. O motivo para isso é claro, a miríade de ocupações possível criam tal diversidade de rotinas possíveis que é impraticável (ao menos nesse espaço virtual) descrevê-las a fim de esgotar as possibilidades.

E não quero também ser uma patrulha, não quero limitar o que é ou não atuação em relações internacionais, como querem muitos (em sua maioria estudantes de universidades conceituadas, para exemplos visite qualquer comunidade ou fórum que tenha relações internacionais como tema). Eu prefiro deixar claro que são observações pessoais do que eu entendo como indispensável para ser um profissional de relações internacionais e nesse particular avalio mais a conduta pessoal e o trabalho realizado do que o cargo nominal exercido.

Como assim? Deve estar a pensar o leitor. Explico. Vejo o profissional de relações internacionais como alguém que tem conhecimentos sobre o diverso, sobre o internacional e que agrega valor ao seu trabalho ao usar esse conhecimento como fundamento para seu pensamento. Assim o profissional de relações internacionais é alguém que por obrigação e gosto tem uma formação intelectual sólida (o que inclui conhecer línguas estrangeiras), tem uma mente crítica, analítica e toma decisões (ou faz análises) de maneira serena e metódica.

Isso de certo é de tal forma uma afirmação genérica que se aplica a qualquer profissão, então cabe pormenorizar. Analisar relações internacionais profissionalmente exige que você tenha um extenso conhecimento de história, economia, política, lógica, cultura, religiões e teorias das relações internacionais ainda que nos relatórios, consultorias, planos de negócios, exposições de motivos ou quaisquer outros documentos por esse profissional produzidos não se tenham essas concepções em seu conteúdo, isto por que todo esse estoque de conhecimento é aplicado (ou deveria ser) ao se escrever esses documentos.

Além do que vai acima é muito comum que o bom analista internacional tenha que ser corajoso para defender as posições e conclusões que chegou, por que em muitos momentos o analista internacional terá opiniões que serão contra-intuitivas e assim serão contra a corrente. E saibam é preciso coragem e convicção para ir contra a maré. Não confundam, por favor, coragem e convicção com teimosia ou vaidade.
O que escrevi acima é verdade para o mercado de trabalho privado, para o emprego público, para o emprego na mídia e para academia. Nesse último campo a coragem é primordial para que se produza um pensamento original e que se publique isso, por que cada vez que um pesquisador propõe uma solução nova para alguma questão ele arrisca a sua carreira, mas se não faz isso arrisca a mediocridade.

No campo midiático é preciso ter em mente o público para quem se escreve e se deve adequar a linguagem, mas mesmo mais livre que a academia, emprego público e privado, já que se escolhe livremente sobre o que se escreverá (o que na academia pode não acontecer, como na graduação por exemplo onde fazemos papers sobre temáticas definidas por professores), mas afora esse particular se espera o mesmo esmero e o mesmo grau de comprometimento que descrevi acima. Vale notar que nesse campo se insere esse blog afinal é uma análise pública, disponível para todos, e ainda que seja feita de maneira autônoma e independente é uma atuação midiática tal qual quem opina num jornal ou portal de grande audiência.

Relações internacionais como profissão é se ocupar de maneira sistemática de decodificar o mundo para quem não tem as mesmas ferramentas mentais que o analista. O que do mundo será decodificado? Para que propósito? E de que forma? Dependerá do campo que se atuará e para quem se destina a análise.

Um adendo a essa definição que arrogantemente cunho é que é possível aplicar essa sistemática e esses conhecimentos em campos que aparentemente não são relações internacionais. Como, por exemplo, o trabalho de executivo, o trabalho de escritório. Ou em seu próprio negócio. Por vezes nem se percebe essa influência.

Como é feita essa decodificação, bom para descobrir você tem no mínimo os quatro anos de universidade para descobrir.

__________________________
P.S: Quem for bom entendedor ao ler o título pensou imediatamente em “In My Craft or Sullen Art” do imortal Dylan Thomas, na bela tradução por Mário Faustino. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lição Chinesa

O governo chinês é importante parceiro comercial no continente africano. Comprando, basicamente, commodities e ofertando bens e serviços, além de empréstimos para projetos de desenvolvimento. Esse arranjo gera para o lado chinês maior influência global e abertura de novos mercados. Pelo lado africano oferece acesso a bens, serviços e empregos.  Trocar commodities por bens de maior valor agregado causa deterioração dos termos de troca, isto é, a diferença entre o valor que exportado e o valor do que é importado. O que naturalmente gera endividamento. Diante desse cenário, o governo chinês usa sua demanda interna e capacidade de importação via acordos comerciais setoriais que aproveitam vantagens comparativas locais dando escala na produção de itens desejados pela China e garantindo mercado para esses produtos.   O que paulatinamente contribui para equilibrar a balança comercial com essas nações africanas ao mesmo tempo que garante abastecimento para a China. Em tempos de ...

A apuração eleitoral e o observador das Relações Internacionai

O Colégio Eleitoral americano e a apuração dos votos, nos parecem muito complicadas e pensamos: no Brasil é bem melhor. Nós olhamos o mundo pelas lentes de nossa cultura e isso afeta o julgamento que fazemos de diversas situações e realidades internacionais. Muitos conflitos em negócios internacionais têm nesse fato sua origem.   A natureza federalista, com ênfase, estadual dos EUA é muito diferente do nosso federalismo e há complexas raízes históricas para isso. Boa parte do debate constitucional original daquele país gira em torno dos Direitos dos Estados. Nosso sistema tem um caráter centralizado, que ignora as nuances regionais em troca de processos uniformizados. A informatização do voto trouxe de fato, muita celeridade ao processo, mas a adoção desse regime não foi feita com um amplo debate nacional e são comuns as desconfianças sobre a integridade desse modo de fazer eleições. Muitas opiniões publicadas sobre o sistema eleitoral de lá e de cá são apenas as lentes da fa...

O complicado caminho até a Casa Branca

O processo eleitoral americano é longo e complexo, sua principal característica é a existência do Colégio Eleitoral, que atribui aos candidatos uma quantidade de votos, que equivale ao número de senadores ou deputados (lá chamados de representantes) que cada estado tem direito no Congresso dos EUA. Esse sistema indireto de votação é uma fórmula constitucional enraizada no processo histórico da formação dos Estados Unidos, que buscava em um forte federalismo, criar mecanismos que pudessem minorar ou eliminar a possiblidade de um governo tirânico. Esse arranjo federalista se manifesta fortemente, também, na forma como a Constituição Americana é emendada, sendo necessário a ratificação de uma emenda aprovada no congresso pelos legislativos estaduais. São 538 votos totais no Colégio Eleitoral, a Califórnia tem o maior número de votos, com 55 e o Distrito de Columbia (equivalente ao nosso Distrito Federal) e outros 7 estados com 3 votos têm a menor quantidade, o censo populacional é usa...