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12 meses em 12 textos: Mês de Janeiro

Sem dúvidas o mês de janeiro foi marcado pela terrível tragédia no Haiti. Durante esse período teci – como todos os observadores e analistas internacionais – análises sobre a questão. O que eu reproduzo abaixo me parece o mais representativo e é um texto que tenho muito orgulho de ter escrito. Foi publicado originalmente dia 19 de janeiro, aqui. (Ok, é meio narcisista isso, mas como me propus vou insistir nessa série).

Pense no Haiti, reze pelo Haiti

Abri o editor de textos no intento de continuar a escrever uma série de texto que preparo para os próximos dias acerca de facetas teóricas das relações internacionais, mas me vi clicando no ícone novo documento em branco não há como deixar de pensar no Haiti, ainda mais por que em todos os canais noticiosos seja na internet, seja na televisão, nacionais ou internacionais o tema é tratado com destaque.

Ainda pensei em escrever uma análise sobre o desconcerto da concertación com a eleição de Sebastián Piñera que rompeu os 20 anos de preponderância da referida coalizão. Contudo, ao pesquisar esse assunto fui bombardeado como já citei por todo tipo de análise de todos os matizes ideológicos e teóricos sobre as repercussões políticas dessa ajuda (eu mesmo escrevi nessa segunda um texto nesses moldes).

A extensão do drama humano no Haiti é espantoso e ainda assim esse povo tenaz (uma característica humana em momentos de crise e de desespero) luta para restaurar algum ponto de normalidade e como vários relatos dão conta se organizam, se ajudam uns aos outros, são muitos os exemplos de doação de água de atendimento médico, de distribuição de alimentos feito por haitianos para haitianos.

Um povo brioso sem dúvidas enfraquecido por sucessivas rupturas políticas e institucionais e por uma cultura de violência política que viceja nesse ambiente de pouca presença de autoridades constituídas. Ainda assim vemos exemplos de solidariedade reconfortantes em meio a tamanha tragédia.

Embora seja verdade que conforto desses bravos exemplos se esvai quando se tem conta das dificuldades que esperam essa nação nas próximas décadas. Um esforço enorme aguarda aos haitianos. Esse povo nos próximos meses em especial se verá muito dependente da organização dos burocratas das O.I’s e da cooperação entre várias nações e infelizmente o prognóstico não é bom quanto a eficiência desses dois fatores individualmente ou em conjunção. 

Mesmo as noticias de tiroteios, saques e um pequeno caos que se nutre da sensação de abandono e de esquecimento que grande parte daqueles que estão em áreas sem a presença de ajuda sentem não diminuem ou depõem contra o povo do Haiti. E é sobre esses ombros cansados e fustigados que recairá a construção de seu país, com altivez e coragem dos homens livres. Com a fé e esperança daqueles que sonham com um futuro melhor para seus filhos. Mas, como sabemos não será fácil e nem será um progresso continuo. 

Não, não sou cínico ao suficiente para em algum nível crer que algo de bom pode ser extraído desse evento. Ainda que o povo do Haiti em 20, 30, 40 ou 50 anos consiga atingir grande desenvolvimento humano todas as vidas ceifadas e todas as possibilidades que eram nelas contidas terá sido perdido. Impossível não se encher de tristeza, impossível não se enojar um pouco por que a vida continua e no campo da política internacional tudo continua seguindo sua lógica de sempre. Sim isso é esperado, como escrevi ontem, mas que deixa um gosto azedo, deixa.  

Aceito esse texto ficou um pouco piegas e um tanto sem objetivo, mas me pareceu ser o texto correto para publicar, creio que um blog, mesmo um como esse que se pretende analítico do fenômeno internacional com algum grau de rigor cientifico, deve conter algo de pessoal, algo opinativo, algo que tribute as origem desse espaço como um ‘diário em rede’ ou web log. 

Minhas orações estão com o povo do Haiti, como diz Caetano (nunca me vi o citando): “O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui”, uma verdade nesses dias em que desastres naturais tanto aqui (em menor escala) e lá, nos unem em sofrimento muito mais que qualquer arranjo feito entre políticos.

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