Pular para o conteúdo principal

12 meses em 12 textos: Mês de Agosto

Continuando a série retrospectiva “12 meses em 12 textos”. Agosto foi um mês em clima de eleições e de protestos pela liberdade de expressão como os dos comediantes que queriam seu direito de zombar os políticos de volta. O mês assistiu a tensões na penisula coreana e teve a iraniana Sakineh como “protagonista”.

O texto que selecionei trata de assuntos nacionais e foi originalmente publicado em 24 de agosto, aqui.

Nacionalismo econômico, mas quem paga a conta?

Há uma tendência tomando corpo na condução dos assuntos econômico, financeiros e comerciais internacionais do Brasil, uma tendência que parecia extinta no inicio dos anos 1990 junto com a febre da lambada. É o nacionalismo econômico sob a égide da soberania. O empresariado nacional capitaneado pela FIESP vem clamando pelas velhas receitas “cepalinas” de crescimento induzido e proteção contra supostas práticas de dumping por parte de produtores estrangeiros, em especial chineses. Para comprovar isso basta um pequeno giro pelos jornais que trazem entrevistas do presidente em exercício da FIESP e presidente da siderúrgica CSN.

É fato que existem produtores nacionais que sofrem com dumping e subsídios internacionais, um dos meus objetos de estudo favorito o contencioso do algodão entre Brasil e EUA serve como prova disso, mas é preciso ser equilibrado em analisar essas ameaças a produção nacional, por que isso não pode servir de desculpa para que ações de caráter anti-liberalização sejam colocadas em prática, ainda mais por que grande parte da agenda internacional brasileira nos últimos anos tem sido voltada a liberalização, no âmbito da Rodada Doha e em arranjos regionais.

É um equilíbrio difícil de alcançar para qualquer governo, por que aqueles que clamam por proteção contra importados baratos sempre clamam que o fazem para proteger empregos e por conta da idéia de que a soberania estaria em risco, com esse aumento da influência estrangeira. Esse argumento, contudo é contraditório dado o esforço que é feito para aumentar as exportações. Já que participar do mercado globalizado significa concorrer globalmente, portanto o mesmo rationale que aumenta as exportações é o que permite que importações também tenham acréscimos importantes.

O modelo proposto como bem tem sido levantado pela imprensa e por especialistas não é inédito na história econômica do Brasil. Durante o regime de exceção militar se praticou o estrito controle da importação por meio de sobretaxas, licenças prévias e proibições estritas (vocês sabiam que é praticamente proibido importar café no Brasil?) tudo isso em nome de uma política que ficou conhecida como “Substituição de importações”. Esse regime de proteção gerou uma inegável defasagem tecnológica que ainda hoje se faz sentir.

O nacionalismo é usado pelos grupos que advogam o protecionismo para que não tenham que dizer que as medidas visam proteger lucros de empresários que por vários motivos são ineficientes ante os competidores externos. Durante anos os empresários apontaram o “custo Brasil” como vilão da economia brasileira e de fato continua a ser o vilão, contudo é mais fácil amealhar o apoio da população e dos políticos gritando “China, China” como o menino gritava Lobo em nome do aumento de barreiras externas. E muito mais fácil acusar o protecionismo dos “loiros de olhos azuis” quando clamando por aumento de financiamento público, via BNDES. Nesse sentido o artigo de professor de economia da PUC-RIO, Dr. Marcelo de Paiva Abreu, no “O Estado de São Paulo” dia 23 de agosto é uma importante peça para analisar essa tendência.

É fácil imaginar quem será chamado a pagar a conta desse nacionalismo econômico, quem arcará com o custo do Brasil grande, do recém achado amor ao verde e amarelo. Sim, isso mesmo todos nós, seja em nosso papel de contribuinte (arcando com o BNDES) seja em nosso papel de consumidor (privado de comprar mais barato em nome da Soberania). 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lição Chinesa

O governo chinês é importante parceiro comercial no continente africano. Comprando, basicamente, commodities e ofertando bens e serviços, além de empréstimos para projetos de desenvolvimento. Esse arranjo gera para o lado chinês maior influência global e abertura de novos mercados. Pelo lado africano oferece acesso a bens, serviços e empregos.  Trocar commodities por bens de maior valor agregado causa deterioração dos termos de troca, isto é, a diferença entre o valor que exportado e o valor do que é importado. O que naturalmente gera endividamento. Diante desse cenário, o governo chinês usa sua demanda interna e capacidade de importação via acordos comerciais setoriais que aproveitam vantagens comparativas locais dando escala na produção de itens desejados pela China e garantindo mercado para esses produtos.   O que paulatinamente contribui para equilibrar a balança comercial com essas nações africanas ao mesmo tempo que garante abastecimento para a China. Em tempos de ...

A apuração eleitoral e o observador das Relações Internacionai

O Colégio Eleitoral americano e a apuração dos votos, nos parecem muito complicadas e pensamos: no Brasil é bem melhor. Nós olhamos o mundo pelas lentes de nossa cultura e isso afeta o julgamento que fazemos de diversas situações e realidades internacionais. Muitos conflitos em negócios internacionais têm nesse fato sua origem.   A natureza federalista, com ênfase, estadual dos EUA é muito diferente do nosso federalismo e há complexas raízes históricas para isso. Boa parte do debate constitucional original daquele país gira em torno dos Direitos dos Estados. Nosso sistema tem um caráter centralizado, que ignora as nuances regionais em troca de processos uniformizados. A informatização do voto trouxe de fato, muita celeridade ao processo, mas a adoção desse regime não foi feita com um amplo debate nacional e são comuns as desconfianças sobre a integridade desse modo de fazer eleições. Muitas opiniões publicadas sobre o sistema eleitoral de lá e de cá são apenas as lentes da fa...

O complicado caminho até a Casa Branca

O processo eleitoral americano é longo e complexo, sua principal característica é a existência do Colégio Eleitoral, que atribui aos candidatos uma quantidade de votos, que equivale ao número de senadores ou deputados (lá chamados de representantes) que cada estado tem direito no Congresso dos EUA. Esse sistema indireto de votação é uma fórmula constitucional enraizada no processo histórico da formação dos Estados Unidos, que buscava em um forte federalismo, criar mecanismos que pudessem minorar ou eliminar a possiblidade de um governo tirânico. Esse arranjo federalista se manifesta fortemente, também, na forma como a Constituição Americana é emendada, sendo necessário a ratificação de uma emenda aprovada no congresso pelos legislativos estaduais. São 538 votos totais no Colégio Eleitoral, a Califórnia tem o maior número de votos, com 55 e o Distrito de Columbia (equivalente ao nosso Distrito Federal) e outros 7 estados com 3 votos têm a menor quantidade, o censo populacional é usa...