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Yes, we can’t. A vitória da oposição nas eleições parlamentares dos EUA

As eleições de meio de mandato são vistas na cultura política dos EUA como uma avaliação sobre o governo federal e tende a mover os governos para o centro. Isto por que obrigam os dois grandes partidos a negociarem para conseguir cumprir sua agenda legislativa. O Congresso dos EUA tem controle rígido sobre o orçamento e por isso uma maioria pode influenciar os rumos da administração federal e no campo externo o Congresso pode dificultar a adesão dos EUA a arranjos internacionais. Já que ao contrário daqui lá o parlamento não abre mão de debater e mesmo negar ratificar um tratado.

Há dois anos quando Barack Hussein Obama foi eleito o 44º presidente dos EUA alguns analistas previam um duro período para a oposição. Argumentavam que o G.O.P (como é conhecido o partido republicano) estaria fadado a encolhimento se insistisse no que qualificavam como guinada “ultra-conservadora” que surgia com o movimento grassroots Tea Party Movement. A vitória nas urnas que reconduziu os republicanos a maioria na Câmara dos Representantes (equivale a Câmara dos Deputados) e a brusca diminuição da maioria democrata no Senado nos mostram que essas analisam não correspondiam a realidade.

Já escrevi aqui que há uma tendência da cobertura política em qualificar os movimentos conservadores nos EUA como extrema-direita e ultra-direita, uma tolice sensacionalista feita com sentido de remeter aos movimentos de cunho fascista dos anos de 1930. O Tea Party não me parece um movimento que será em si duradouro, mas sua principal lição é mostrar que a agenda de diminuição do estado, liberdade individual e responsabilidade fiscal é capaz de arregimentar eleitores e vencer disputas eleitorais.

Nesse sentido o Tea Party conquistou vitórias importantes e também teve baixas doloridas como a de Christine O’Donnel e a reeleição do democrada Hary Reid líder da maioria democrata no Senado. No campo das vitórias do Tea Party esse movimento elegeu duas estrelas ascendentes do partido republicano Marco Rubio, na Flórida e Rand Paul em Kentucky. Esse dois políticos conservadores e relativamente jovens desafiam o conceito de que o Tea Party é um movimento de lunáticos e como gosta a imprensa nacional ultraconservadores. Marco Rubio é filho de exilados cubanos e Rand Paul é filho do conhecido e carismático conservador Ron Paul que foi pré-candidato republicano em 2008.

Com a retomada da maioria na Câmara de Representantes termina o ciclo como Speaker of the House (presidente da Câmara) da liberal (por que não chamam de ultraliberal aqui e para quem não acompanha política americana os liberais são a esquerda por lá) Nacy Pelosi (recomendo essa bela análise feita pelo site Político.com intitulada “The rise and fall of Nancy Pelosi”) que por seu estilo pessoal pouco afável e polarizador conduziu a maioria democrata com mãos de ferro e foi uma das responsáveis pelo modo como foi aprovada a reforma da saúde. Pelosi era capaz inclusive de influenciar a Casa Branca pela liderança que possuí entre os eleitores mais liberais que formam a base dos eleitores de Obama. A animosidade do G.O.P com Pelosi, por conta da reforma da saúde, inspirou o slogan “Fire Nacy Pelosi” que animou os voluntários republicanos e foi usado para arrecadar dinheiro para as campanhas deste partido.

O motivo maior para a derrota de Obama é claro foi a vagarosa recuperação econômica, o crescimento no numero de pessoas que perdem suas casas por não conseguirem pagar as prestações e o clima de insatisfação que as enormes expectativas que sua eleição criou. Aqui nesse blog tratei disso quando listei os elementos que desafiariam Obama e um dos maiores era lidar com expectativas altas e irrealistas.

Como bem colocou o sempre lúcido Dr. Mauricio Santoro em seu blog:

“[...] Obama implementou grandes pacotes de ajuda governamental para o setor financeiro e para a indústria automobilística. É verossímil apostar que tais medidas impediram uma catástrofe ainda maior, mas os benefícios para as pessoas comuns foram muito reduzidos. O gráfico abaixo mostra que, mesmo diante da lenta recuperação do crescimento, a taxa de desemprego continua praticamente a mesma. Desempenho muito inferior a crises anteriores. Em torno de 10%, cerca do dobro do que é habitual nos Estados Unidos. Algumas pesquisas mais recentes que analisei afirmam que há 6 candidatos para cada nova vaga de emprego aberta no país, evidentemente isso é um terrível golpe na perspectiva da maioria voltar a ter um mínimo de segurança e estabilidade. 

A reforma na saúde foi a mais importante iniciativa governamental na área social desde a década de 1960, mas ainda assim teve falhas sérias. Ponto principal: o Estado obriga os cidadãos a ter seguros privados, mais ou menos subsidiados conforme faixa de renda. Mas diante de tantas falhas nos mecanismos de regulação, quem garante que as empresas privadas de saúde irão atender com eficácia aos novos consumidores? Ser forçado a fazer algo com boas chances de dar errado não torna ninguém fã do presidente, de modo compreensível. Também há muito ressentimento com o modo como os Democratas aproveitaram sua maioria legislativa para aprovar a reforma sem participação dos Republicanos. A exclusão de uma oposição que representa parcela significativa da população foi controversa, e acabou se mostrando um erro sério para Obama”.
De todo modo como bem colocou o futuro Speaker of the House John A. Boemer (atualmente líder da minoria republicana) em seu emocionado discurso não é hora de comemorar e sim de trabalhar e aproveitar a segunda chance que foi dada aos republicanos pelos eleiores. O tom foi semelhante aos discursos dos dois senadores do Tea Party (Rubio e Paul) que deixaram a porta aberta para cooperar com a Casa Branca se essa vier para o centro.

E é nesse ponto que reside o desafio de Obama como lidar com um congresso dividido e sem a maioria na Câmara sem alienar muito sua base de suporte liberal e conquistando o máximo possível de eleitores independentes (responsáveis por sua eleição em 2008). A situação é ainda mais complicada por que ao contrário de Reagan e de Clinton que puderam contar com economia em expansão para contorna a derrota nas eleições legislativas. Por isso mesmo o Wall Street Jounal tratou o assunto com a manchete “Obama recebeu uma mão difícil”.

Será interessante notar como e se os republicanos, em geral e membros do Tea Party, em especial conseguirão cumprir suas promessas de equalizar as contas públicas e de reverter parte da reforma de saúde de Obama.

Comentários

Anônimo disse…
Demorei pra ler o texto. rsrs
mas é um blog mto informativo. Poucas pessoas se destinam a fazer blogs assim (nem eu)
gostei sobretudo da iniciativa.
Parabéns
Anônimo disse…
Meu amigo, pra mim já chega a política nacional, porém apesar de longa essa sua postagem é bem esclarecedora :)
Também acredito que essa derrota tenho sido mais por descrença com Obama que por afinidade com ideais propostos pelo TeaParty e afins. A questão é ver como os Republicanos vão agir para mudar o quadro de insatisfação (ou melhor, se vão conseguir algo), ou se servirão apenas para barrar as reformas, por "pirraça".
Mário Machado disse…
A dificuldade é saber o que o eleitor vai perceber como "pirraça" e como legitima oposição.

De todo modo a renovação mostra que há um descontentamento da população com o "beltway".

Abs,

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