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Brasil: The day after

Transcrevo abaixo um texto do escritor, pesquisador, diplomata e, sobretudo professor Paulo Roberto de Almeida que trata da situação política nacional e das conseqüências não só das eleições, mas de anos do uso da retórica cartesiana de bem versus mal. Essa nefasta mistificação de que haveria uma suposta luta entre elites e povo. Retórica esta que está presente na política externa brasileira.

Os leitores habituais dessa página devem estar a perceber que nesses últimos dias mudanças ocorreram na prática diária dessa página, isto é, a constante transcrição de textos de terceiros isso se deve não só a limitação de tempo que me impedem de pesquisar a contento, mas também devido ao fato de que alguns desses textos expliquem de maneira precisa o que penso sobre determinado assunto, ou por que são textos interessantes que julgo enriquecedores para o debate que pretendo conduzir aqui.

Os assuntos internacionais e os temas de relações internacionais estricto sensu estão a ser relegados nos últimos dias, contudo, creio ser natural em um momento agudo para a sociedade brasileira como é o período eleitoral dedicar algum tempo para refletir sobre esse processo. Creio que mesmo já tendo declarado voto não é conveniente fazer apologia partidária aqui e por causa disto tenho procurado pela reflexão acerca dos temas propostos. E nada é mais importante e menos abordado que o que poderíamos chamar de zeitgeist político do Brasil. E esse é o motivo da seleção do texto abaixo do professor Paulo Roberto, que captura muito bem a animosidade e a degradação geral que ameaçam a estabilidade do sistema político e até mesmo de nossa jovem democracia.

Faço apenas um apelo a vocês. Reflitam e analisem muito bem suas escolhas políticas busquem ver além das brumas do marketing eleitoral e do discurso insistente e inflamatório dos militantes profissionais e amadores. Procurem na medida do possível perceber as agendas daqueles que escrevem e falam na grande imprensa e na dita imprensa independente – sejam criteriosos inclusive com o que eu digo. Um último conselho sejam sempre céticos com aqueles que buscam o poder.

O original do texto abaixo foi publicado no blog Diplomatizzando.

Brasil: the day after
Paulo Roberto de Almeida

Brasil, 1ro. de Novembro de 2010: o país amanhece irremediavelmente dividido, qualquer que seja o resultado das eleições. Quem quer que seja o vencedor, sua herança será um clima pesado de divisão, uma fratura que cinde a nação praticamente ao meio de suas preferências eleitorais, com terríveis consequências para os quatro anos seguintes. 

Num caso, podemos antecipar quatro anos de greves, manifestações, invasões, a favor ou contra o governo, não importa, em busca de vantagens políticas, de chantagens econômicas, em torno de simples alinhamentos corporativos.

No outro caso, teremos quatro anos de greves, manifestações, invasões, a favor ou contra o governo, não importa, em busca de vantagens políticas, de chantagens econômicas, em torno de velhos alinhamentos grupais.

Esta é a lógica da divisão do país. Estarei sendo muito pessimista?

Não creio. Infelizmente, eu vejo o Brasil aproximando-se do modelo de alguns vizinhos, países nos quais o processo político também conduziu à fragmentação social, à divisão política, à fratura institucional e a uma predisposição mental de conceber a arena do jogo político, não como uma sadia competição entre propostas alternativas de políticas públicas, mas como um enfrentamento entre inimigos irreconciliáveis, como uma batalha de vida ou morte em torno de escolhas excludentes.

Este é, lamentavelmente, o legado desses anos de simplificação do debate eleitoral como sendo uma oposição entre o passado e o futuro, entre o antes e o agora, entre “nós” e “eles”, entre o povo e as "elites", entre o bom e o mau. Este é o legado da visão confrontacionista do mundo, aquela que pretende que todos os vícios estão de um lado, e que todas as virtudes estão do outro.

Gostaria, pessoalmente, que não fosse assim. Como analista político constato, porém, que é assim! É assim que se comportam certos personagens, que deveriam atuar como magistrados, encarregados de presidir uma simples disputa eleitoral. Ao contrário: eles vêem na contenda uma luta terrível entre um projeto de poder, o “seu” projeto, e todas as demais propostas que não se submetem à sua visão do mundo.

Este parece ser o destino para o Brasil nos próximos anos, infelizmente: descoordenado, dividido, com quase metade da população sentido um gosto amargo de derrota e desiludida de que a política possa representar uma oportunidade para melhorar o Brasil, de forma gradual e consensualmente. Para nossa tristeza, temos apenas de aceitar que uma única solução é exclusivamente aceitável, sem qualquer outra possibilidade. Esta é a lógica dos que nos levaram a essa divisão insana e improdutiva entre brasileiros que simplesmente ostentam opiniões opostas sobre como melhor encaminhar os problemas da nação.

Não quero, contudo, deixar a impressão de que, seja num caso, seja no outro, tudo vai resultar inevitavelmente no mesmo clima de brigas e impasses em torno da governança. Nem tudo são “parecenças” e semelhanças entre um e outro projeto. Existem diferenças, por certo, e eu não me privo de apontá-las. Com minha habitual franqueza e total abertura de linguagem.

Nutro pela classe política as mais fundadas desconfianças, como é público e notório. Mas não posso deixar de reconhecer diferenças entre os personagens. Isto porque não se pode confundir as partes com o todo. Cada um tem responsabilidades individuais e diferenciadas, e não se pode amalgamar o comportamento de todos num mesmo conjunto indivisível. No assunto da corrupção, porém, ocorre algo curioso, justamente. Sempre tivemos a corrupção “normal” do sistema político: políticos se apropriando individualmente de bens públicos, desviando o orçamento para suas pequenas causas (algumas grandes), interferindo no processo decisório em torno de investimentos públicos, etc. Isso é conhecido e até mesmo esperado e sei situa num nível, digamos assim, artesanal, ou manufatureiro, da corrupção.

O que não tínhamos conhecido, porém, era a corrupção sistêmica, estrutural, de natureza “fabril”, em escala industrial, ou seja, organizada e mantida, até estimulada e “agregada” por um grupo que se movimenta em torno do poder com o único objetivo de mantê-lo indefinidamente. Nem se trata de construir um sistema alternativo, pois ninguém mais acredita nesse tipo de bobagem; se trata apenas de explorar as vantagens do sistema para o seu grupo, exclusivamente, fazendo sua “acumulação primitiva”, inclusive no plano individual.

Isto é novo no Brasil, e propriamente aterrador.

Creio, infelizmente, que é este o legado que teremos destas eleições, um legado que nos acompanhará pelos próximos anos.
Tóquio, 24 outubro 2010

Comentários

Discordo que a divisão seja insana e improdutiva - até nos EUA isso funciona bem. De certo modo, a questão não é haver dois lados se digladiando, mas como isso ocorre, essa divisão meio efêmera que existe entre esses "espectros" políticos que no fim são a mesma coisa. Não tenho perspectivas muito otimistas pra esse futuro próximo.
Mário Machado disse…
Álvaro,

Eu compartilho de seu pessimismo quanto ao futuro próximo. Ainda mais por conta de um congresso que será fisiologista e incapaz de apresentar legislações inovadoras e que sejam capazes de melhorar a qualidade de nossos sistema político, por exemplo.

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