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Jogos redentores?

Essa enorme nação em desenvolvimento, parte do grupo denominado como BRIC, vive um momento econômico excelente e tem conseguido se manter incólume (ou quase) no cenário de crise global ainda que sofra com corrupção de agentes públicos e com as chuvas e as inundações em seus centros urbanos (mesmo e principalmente nos maiores, mais ricos e mais importantes). Esse governo decidiu demonstrar seu novo momento sediando um mega-evento esportivo, que supostamente marcaria seu lançamento a um novo patamar de reconhecimento e prestigio internacional. Para isso escolheu uma de suas mais conhecidas cidades. Parece familiar, não? Mas, estou a falar da Índia e os “Commomwealth Games”. Uma história que pode nos servir de aviso.

Há algum tempo acompanho na imprensa internacional, notadamente a BBC, uma crescente preocupação com a estrutura dos jogos. O que no começo poderia parecer, para alguns, preconceito dos “loiros de olhos azuis” com nações pobres ou arrogância européia, ou uma batalha norte-sul (ideológico claro). Está se provando uma preocupação legítima. Afinal os jogos começam dia 3 de outubro e muito da infra-estrutura não está pronto, incluso a vila que hospedará os atletas que tem apenas 18 dos 34 prédios conclusos. Nesse sentido as preocupações se elevaram mais ainda depois que uma passarela para pedestre desabou no estádio que sediará a abertura e encerramento do evento.

A esse desastre descrito acima se somam o assassinato de dois turistas que estavam na cidade a espera dos jogos e a forte declaração de que a vila não seria apropriada para habitação humana.  

A questão que esse cenário em que temos o crescimento exponencial do orçamento dos jogos (tal qual o Pan-Americano no Rio) e denúncias bem substanciadas de corrupção é muito semelhante ao que pode ocorrer nos mega-eventos que o Brasil decidiu sediar (Copa do Mundo FIFA e Jogos Olímpicos).

Digo isso não por que torço contra como alguns hão de argumentar e sim por que muitos dos motivos que foram sustentados pelo governo indiano para investir bilhões de dólares de dinheiro dos contribuintes nesse evento são os mesmos que ouvimos. Ainda mais semelhantes foram as promessas de que seriam os melhores jogos jamais vistos.

É claro há diferenças até climáticas entre Nova Déli e Rio de Janeiro, mas há desafios em comum que se dizia que os jogos minorariam para a população como transportes, empregos, segurança pública e auto-estima. Além de que iria projetar a Índia e a cidade de Nova Déli para o mundo. Outra semelhança e que as duas cidades tem um problema grave de habitação adequada e a corrupção que atinge níveis endêmicos.

O Rio de Janeiro, contudo, conseguiu sem maiores sustos exceto sérios problemas de mobilidade, com o estádio que abrigou o baseball e com os compradores dos apartamentos da vila pan-americana. Além de promessas não cumpridas de transporte até o Estádio Olímpico João Havelange (Engenhão) e do “legado do Pan” que foi exagerado pelas autoridades envolvidas (aqui recomendo uma busca pelo termo abundam reportagens e análises sobre o assunto).

Indianos já se manifestam o seu temor de que o evento se transforme numa “vergonha nacional” e o roteiro para isso é assustadoramente familiar começou com atrasos na execução de obras, inundações provocadas pelas chuvas, infra-estrutura deficitária, corrupção, expansão do orçamento. Espero que os organizadores dos eventos que se avizinham no Brasil (a começar pelos Jogos Mundiais Militares ano que vem), governos e sociedade se preparem para evitar que esses eventos dilapidem o erário, enriqueçam elementos mafiosos e envergonhem o povo. 

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