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Uma pergunta, uma resposta. De algum modo é o domingo de leitores

Hoje eu li no Twitter um questionamento legítimo que me foi feito por uma moça carioca que parece bastante interessada na vida política brasileira, digo isso pelo teor das mensagens dela nesse sistema de microblog que mostram preocupação com o uso do dinheiro público e com a compatibilidade moral dos candidatos com os cargos pretendidos.

O questionamento não poderia ser mais simples, direto e difícil de responder no rigor dos 140 caracteres. A pergunta era “por que você não gosta do Celso Amorim?”.

Bom, para responder isso tenho que antes colocar que não conheço o Ministro pessoalmente, já o vi em eventos que participei quando morava na capital e em espaços de convivência (restaurantes, café, etc.), isso posto devo dizer que tenho divergências quanto a maneira que ele conduz a política externa brasileira e com suas visões pessoais expressas em seus livros, artigos e até mesmo entrevistas.

Uma pesquisa em meu blog mostrará que há inúmeros textos que tratam da política externa e que citam nominalmente o Chanceler. Ele não é e nem aponto que ele seja o único responsável pela condução da política externa brasileira, mas há muito dele ali, basta para isso confrontar as posições oficiais aos inúmeros escritos do diplomata. Talvez, por sua visão de mundo ele tenha sido escolhido Ministro, há nele naturalmente muita concordância com as posições político, partidárias do atual governo.

Minha crítica se sustenta na questão que eu chamo de moralidade ad hoc de nossa política externa, ou seja, há em questões similares posturas distintas que se orientam a partir de alinhamentos ideológicos. A oposição sempre feita é a ferrenha intervenção em Honduras e a igualmente ferrenha defesa da não-intervenção no Irã, ou mesmo em países próximos.

Pesa também a atuação pífia na defesa de nossos interesses na Bolívia e no Equador dois exemplos em que o tesouro arcou com a falta de ação da diplomacia brasileira, ou alguém vai me convencer que uma política de nacionalização altamente alardeada durante as campanhas eleitorais pegou o Itamaraty de surpresa? Não poderia ter feitos gestões usando até o carisma do presidente Lula para tentar prevenir o que se passou, ou minimizar o prejuízo?

Sempre que se fala sobre esse dois casos os mais ideológicos defensores do governo sempre polarizam a questão a repetir ad eternum que não havia o que fazer nesses casos e dizem petulantemente “queriam que o Brasil invadisse a Bolívia?”. Ora havia uma série de tratativas que poderiam ter sido feitas, e que podem ter sido feitas de todo jeito houve um grave prejuízo ao interesse nacional.

Quer coisa mais desabonadora que receber o Zelaya nessa exótica condição de “hóspede” em nossa Embaixada em Tegucigalpa? Há bytes e mais bytes aqui sobre isso. A isso se soma as públicas e notórias derrotas da diplomacia brasileira na busca de emplacar Secretários-Gerais de Organizações Intergovernamentais Internacionais, sem contar o apoio ao candidato egípcio derrotado na UNESCO que era conhecido por ter queimados livros quando ministro da educação.

Outro ponto que divirjo fortemente do Ministro é a questão de sua filiação ao PT, coisa que é direito dele, fato. Mas, que não considero saudável para uma política de estado como a política externa tratei longamente do assunto no texto: “Politização ou partidarização da Política Externa Brasileira? Um ensaio exploratório” .

Há uma tendência nele que possa estar a ser exacerbada por ser filiado a partido política e por estarmos em um período eleitoral que a tendência de desclassificar qualquer crítica a política externa brasileira e para isso não se isenta nem de elucubrações no sentido dos críticos serem “entreguistas”, “vendidos” e outro tons e palavras ofensivas que não obstante sua virulência não refutam as críticas. Como além de um diplomata é um acadêmico acredito que ele seja plenamente capaz de aceitar críticas, mas em sua atuação ele tem se mostrado irascível.

Já imagino os comentários que me chegaram na velha linha do “você critica por que queria ser diplomata”, “inveja”. Mas, como já diz o dito popular “quem ta na chuva é pra se molhar”. Há, claro outra linha de discórdia mais civilizada, contudo não menos agressiva que é a linha que irá qualificar qualquer exigência de mudanças na política externa como prática de idealismo e que Amorim está certo por que ele é realista. Creio haver uma confusão de realismo com cinismo político, mas essa é uma questão para outro momento.

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