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Nacionalismo econômico, mas quem paga a conta?

Há uma tendência tomando corpo na condução dos assuntos econômico, financeiros e comerciais internacionais do Brasil, uma tendência que parecia extinta no inicio dos anos 1990 junto com a febre da lambada. É o nacionalismo econômico sob a égide da soberania. O empresariado nacional capitaneado pela FIESP vem clamando pelas velhas receitas “cepalinas” de crescimento induzido e proteção contra supostas práticas de dumping por parte de produtores estrangeiros, em especial chineses. Para comprovar isso basta um pequeno giro pelos jornais que trazem entrevistas do presidente em exercício da FIESP e presidente da siderúrgica CSN.

É fato que existem produtores nacionais que sofrem com dumping e subsídios internacionais, um dos meus objetos de estudo favorito o contencioso do algodão entre Brasil e EUA serve como prova disso, mas é preciso ser equilibrado em analisar essas ameaças a produção nacional, por que isso não pode servir de desculpa para que ações de caráter anti-liberalização sejam colocadas em prática, ainda mais por que grande parte da agenda internacional brasileira nos últimos anos tem sido voltada a liberalização, no âmbito da Rodada Doha e em arranjos regionais.

É um equilíbrio difícil de alcançar para qualquer governo, por que aqueles que clamam por proteção contra importados baratos sempre clamam que o fazem para proteger empregos e por conta da idéia de que a soberania estaria em risco, com esse aumento da influência estrangeira. Esse argumento, contudo é contraditório dado o esforço que é feito para aumentar as exportações. Já que participar do mercado globalizado significa concorrer globalmente, portanto o mesmo rationale que aumenta as exportações é o que permite que importações também tenham acréscimos importantes.

O modelo proposto como bem tem sido levantado pela imprensa e por especialistas não é inédito na história econômica do Brasil. Durante o regime de exceção militar se praticou o estrito controle da importação por meio de sobretaxas, licenças prévias e proibições estritas (vocês sabiam que é praticamente proibido importar café no Brasil?) tudo isso em nome de uma política que ficou conhecida como “Substituição de importações”. Esse regime de proteção gerou uma inegável defasagem tecnológica que ainda hoje se faz sentir.

O nacionalismo é usado pelos grupos que advogam o protecionismo para que não tenham que dizer que as medidas visam proteger lucros de empresários que por vários motivos são ineficientes ante os competidores externos. Durante anos os empresários apontaram o “custo Brasil” como vilão da economia brasileira e de fato continua a ser o vilão, contudo é mais fácil amealhar o apoio da população e dos políticos gritando “China, China” como o menino gritava Lobo em nome do aumento de barreiras externas. E muito mais fácil acusar o protecionismo dos “loiros de olhos azuis” quando clamando por aumento de financiamento público, via BNDES. Nesse sentido o artigo de professor de economia da PUC-RIO, Dr. Marcelo de Paiva Abreu, no “O Estado de São Paulo” dia 23 de agosto é uma importante peça para analisar essa tendência.

É fácil imaginar quem será chamado a pagar a conta desse nacionalismo econômico, quem arcará com o custo do Brasil grande, do recém achado amor ao verde e amarelo. Sim, isso mesmo todos nós, seja em nosso papel de contribuinte (arcando com o BNDES) seja em nosso papel de consumidor (privado de comprar mais barato em nome da Soberania). 

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