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Patriotismo, chuvas no nordeste e Copa do Mundo

Hoje à tarde o treinador da seleção brasileira de futebol deu uma entrevista coletiva, um tanto menos antipática do que vinha sendo os certames dele com a imprensa. Ainda que com trocas de farpas, uma coisa, contudo chamou minha atenção a insistência do treinador na palavra patriotismo.

Será que patriotismo é seguir cegamente nossos líderes? Será que patriotismo é torcer incondicionalmente para a seleção apoiando seu treinador e denunciando quem não concorda com seu trabalho?

Não, não aceito essa visão festiva e estreita de patriotismo, desse patriotismo vestido de torcida de futebol. Sim, eu sou torcedor de futebol e sou um grande entusiasta do esporte, fico em frente a TV, e quando posso vou ao estádio torcer pela “amarelinha”, grito a plenos pulmões o refrão “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” que se entoa nos estádios. Estive na multidão que tomou conta da Esplanada dos Ministérios em 1994 e em 2002 para recepcionar os campeões do mundo. Passei o dia sob o inclemente sol do cerrado fustigado pelos seus raios piorados pela baixa umidade relativa do ar típica do cerrado brasileiro, apenas para compartir com meus compatriotas a alegria da conquista esportiva e ver de perto a brilhante taça, a dourada Copa do Mundo.

Mas, isso é entusiasmo irracional de torcedor, um fenômeno amplificado pelos meios de comunicação que o treinador não esconde sua irritação, sem dúvidas são lembranças gostosas e emocionantes. Quem não se arrepia quando toca o Hino Nacional antes de uma final de Copa do Mundo? E quem não explodiu de alegria com o chute errado de Baggio, ou com os chutes de Ronaldo? Isso para citar as vitórias que testemunhei.

Lembro, também, da tristeza de 1998, do silêncio na rua, um silêncio que eu só testemunhara quando do falecimento de Ayrton Senna (1994) e antes no de Tancredo Neves (1985) esse dia, por exemplo, é uma das minhas primeiras lembranças, junto com esconder-me da chuva debaixo de uma enorme bandeira do Brasil durante a campanha das ‘Diretas Já!’ (uma cena icônica dessa campanha pela aprovação da Emenda Dante de Oliveira), era um meninote, mas tive a sorte de ir a uma creche para filhos de servidores públicos que funcionava no térreo do anexo do Ministério da Saúde, por isso minha mãe me levou. (por sinal passei minha infância por ali, olhando o espelho d’água do Palácio do Itamaraty, vizinho ao Ministério da Saúde, e a fugir dos vigilantes que tentavam impor a norma de não pisar na grama, gostava muito de ver os jardineiros que usavam um barco para manter os jardins do palácio, ok, momento nostalgia já passou.)

Voltando ao patriotismo. Não creio ser a empolgação pelo futebol uma verdadeira manifestação de patriotismo esse sentimento que é descrito no dicionário Aurélio como: “Amor da pátria; consciência dos deveres cívicos; e apego e/ou admiração pelas coisas do seu país”. E esse arroubo de copa do mundo cai mais na esfera da patriotice.

Das acepções da palavra patriotismo a que me toca é que diz que esse sentimento é a consciências dos deveres cívicos, que pode ser extrapolado para ter cuidado com nossos compatriotas, isto é, trabalhar em prol do bem comum de nossa sociedade e de uma maneira geral do toda a humanidade.

Sabe o que é patriotismo é o trabalho incessante dos médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, pessoal de segurança, pessoa de primeiros socorros que sem pestanejar se lançam ao serviço para ajudar a vitimas de desastres naturais, sendo o mais recente as inundações no nordeste em Alagoas e Pernambuco. Patriotas são aqueles que se voluntariam, que arrecadam em suas comunidades, igrejas, locais de trabalho, vizinhança donativos e dinheiro para ajudar as vítimas. Patriotas são os que trabalham com esforço e esmero para levar alivio para os que sofrem. Patriotas são aqueles que mesmo em tempos que não são de tragédia saem nas madrugadas para oferecer roupas e alimentos quentes aos moradores de rua. Patriota é aquele soldado que serve em um batalhão de fronteira isolado e que vai além do dever para ajudar as comunidades isoladas. Patriota é o brasileiro que paga impostos em dia recebendo nada em troca.

Algo me deixou tremendamente ofendido com as alusões patrióticas do treinador da seleção (a quem tenho alguma simpatia, pelo menos no lado profissional) por que me pareceu ofensivo exigir sentimentos patrióticos para um time de futebol, enquanto tantos de nossos compatriotas estão agora sem casa, sem nenhum bem material, sem ter o que comer, tantos estão isolados ainda a espera da ajuda oficial e a da solidariedade da comunidade, tantos que agora sofrem sem saber se seus entes queridos estão vivos, ou sem saber se terão os corpos de seus mortos para poderem ter encerramento legal e emocional. 

Sei que não é culpa do treinador. Ele julga estar fazendo o melhor e minha raiva deve ser direcionado aos nossos governantes que não tem planos de auxílio e emergência para tragédias naturais que são anuais.

Essa é hora de ajudarmos uns aos outros, agora é hora de doar, pelo menos os que dentre nós possuem os meios para assim fazer, é hora de trabalhar, é hora para pedir ajuda a Deus (pelo menos os que crêem), é hora observar como se portam aqueles que elegemos. Não podemos deixar que a emergência sirva como pretexto para negócios espúrios.

Sim hoje eu vou torcer pela seleção, por 90 minutos, mais acréscimos, mas meu patriotismo eu guardo para as questões em que ele é preciso. E para ficar de olho nos espertalhões que queiram se locupletar ou empurrar agendas nefastas aproveitando de um momento tão delicado. É preciso notar que a OEA ofereceu ajuda e o governo dos EUA ofereceu ajuda financeira, em torno de USD 50.000,00 por meio da USAID.

O governo federal fala em mais BRL 500.000.000,00 de ajuda de emergência, espero que o Tribunal de Contas fiscalize essa ação. Por falar em patifaria já chegam relatos de celerados que começam a saquear as regiões devastadas, sem contar os que aumentam seus preços para lucrar com a tragédia, fazendo o que se costuma chamar de ‘profiteering’. Pelo menos esses relatos são contrabalançados com os que dão conta dos voluntários agindo humana e patrioticamente. Digno de nota, também, é a atuação dos militares que participaram das operações no Haiti. Verdadeiros patriotas, cumprindo seu dever.

Segundo o jornal Correio Braziliense: “Em três dias de chuvas, o volume de água em Alagoas e Pernambuco superou a média mensal. Pelo menos 44 áreas foram atingidas. Só em Pernambuco são 24.552 desalojados e 17.808 desabrigados. Em Alagoas, são 26.618 desabrigados e 4.897 desalojados.” (o link acima da conta dessa informação).

Água é o item mais necessário nesse momento, busquem saber como ajudar, se puderem. É um ato de patriotismo e amor ao próximo, como disse uma senhora em uma reportagem na Globo News “é nosso dever como cidadãos”.

Devo confessar esses brasileiros, civis e militares, famosos e anônimos, ricos e pobres, me dão mais orgulho que qualquer golaço de nossos craques na África do Sul, continuarei a torcer, mas é preciso ter claro as dimensões reais de cada coisa. Um consolo diante da tragédia que parece querer se tornar corriqueira é a força e a garra dos atingidos que imediatamente começam a se recompor tomados pela tristeza e movidos por uma irrefreável esperança. O futebol pelo menos é capaz de dar um pouco de alegria ao povo, como na cena dos meninos que puderam ver o treino da seleção. Emocionante sem dúvidas, mas perspectiva é tudo. Assim espero que vençamos nossos patrícios hoje, na África, mas que vençamos a contenda mais difícil que é aqui mesmo em nosso solo.

Força Pernambuco! Força Alagoas! Força Brasil! O Brasil precisa de seus patriotas nessa hora de dor. 

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