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Sobre a liberdade

Vocês já se imaginaram a viver em um mundo onde você é privado de expor suas opiniões, um mundo Orwelliano, em que seus vizinhos podem te delatar as autoridades pelo grave crime de pensar diferente do que o sistema prega. Esse sistema utópico se propõe a construir um novo homem, um experimento de engenharia social, que por definição é soturno e nefasto, por que pretende a bem de provar uma teoria que não encontra amparo na vida real, transformar a vida das pessoas para que caibam na teoria.

Há um atrativo nessas utopias que atiçam o desejo de igualdade entre os homens, se alimentam na alma de justiça social, mas que justiça é essa onde a mais básica das liberdades que é pensar é algo perigoso, que pode lhe custar a vida. Uma distopia que precisa de extrema vigilância para se sustentar, que precisa de aparatos de vigilância e de um inimigo para culpar por tudo de errado.

Um sistema onde a distensão é logo satanizada, tratada como vendida, como inimiga do povo, as vezes por cobrar algo tão nefasto quanto transparência no uso de recursos públicos. Uma ditadura vergonhosa que se esconde como se fora o paraíso da liberdade e da igualdade.

Sim é claro que falo de Cuba e não tenho a mínima simpatia pelo governo que transformou essa ilha caribenha em uma ilha prisão, que é defendida por intelectuais, por militantes, por pessoas que crêem nesse sistema. E eles têm mil teses, mil justificativas, escondem as mortes e a pobreza no embargo do inimigo do norte, e exageram as chamadas conquistas sociais. Mas, nada disso muda os fuzilamentos em massa conduzidos pessoalmente por seu “herói” argentino, um regime que concentra a décadas o poder nas mãos de uma pequena cúpula autocrática, despótica, digna do “ancien régime” seus crimes são glorificados por elementos tidos como humanitários.

Afinal como podem aqueles que denunciam as mazelas da exploração da mais valia pelos capitalistas cruéis e assassinos, serem corruptos em seus ideais e desonestos em seus argumentos? Como podem estar errados intelectuais proeminentes da academia mundial, homens objetivos, homens de ciência?

Serei acusado de estar agindo ideologicamente, de ser sei lá agente do império, ou membro de uma elite podre, na verdade, pouco importa minha orientação política, por que o condeno lá, condeno aqui. Não há virtude coletivista ou individualista que valha o sofrimento de tantos, não há abstrações políticas que valham ser ameaçado por simplesmente blogar.

Sou fã declarado da corajosa blogueira cubana Yoani Sánchez, que tem seu livro editado no Brasil, mas os irmãos Castro não permitiram que ela viesse aqui lançar seu livro “De Cuba com Carinho”, Ed Contexto. Essa obra é uma coletânea de textos selecionados que foram publicados em seu blog o famoso Genaracíon Y. Ela é acusada pelo regime de ser uma agente da CIA, vendida ao imperialismo, já os dissidentes de Miami não gostam dela, afinal ela rompe seu monopólio da oposição, e assim, está ela cercada por todos os lados, mas também, cercada por colaboradores, de todo mundo e claro dentro da ilha.

Por que escrevo sobre isso, por que como alguém que mantém um blog me sinto de alguma maneira ligado a Yoani, sua ânsia de liberdade reverbera em meu DNA (afinal, como a maior parte dos brasileiros, sou descendentes de escravo, portanto a liberdade é inegociável para mim).

Abaixo reproduzo a entrevista de Sánchez, que foi concedida por telefone ao programa Globo News Painel.


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