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Uma breve reflexão sobre ajuda humanitária, interesses nacionais e a análise internacional

Continua a controvérsia em especial na mídia, já que ainda não houve tempo para se estabelecer na academia (o que vai quando os primeiros papers começarem a ser publicados) sobre a natureza a o tipo da ajuda dos EUA ao Haiti. Esse debate pode ser divido em dois tipos o concreto e o analítico – teórico.

O primeiro se dá entre os formuladores de política externa e negociadores que representam os atores mais fortemente envolvidos que usam ou não a imprensa como mecanismo para galvanizar a atenção da opinião pública. O segundo debate é de certa maneiro subsidiário desse primeiro grupo já que envolvem acadêmicos, jornalistas, políticos não formuladores ou executores de política externa, cidadãos especialistas ou não.

Quando afirmo ser derivado por que em certa maneira utilizasse de elementos comunicados pelo primeiro grupo como fundamento de analises e argumentações, ainda que haja um claro desequilíbrio no acesso a informação do teor exato das negociações e contatos entre os atores.

Entre os acadêmicos o debate reativa uma controvérsia cientifica acerca do papel da cooperação internacional (no caso tanto a ajuda técnica, como a transferência unilateral), sobre a eficácia e pertinência das missões de manutenção da paz, sobre o conceito de ‘state building’. Para quem é versado em relações internacionais não obstante a corrente teórica que seja empregada tem uma coisa em mente todas essas ações acima, são ações de política externa e como tal se dão em torno do interesse nacional do estado envolto. Um dos aspectos do interesse nacional é mostrar capacidade política, econômica e militar para o resto do mundo, assim afirmando e aferindo seu nível de poder.

Uma prova desse caráter egoísta das decisões de política externa pode ser comprovado quando da louvação da capacidade de prontidão nacional demonstrada na rapidez em que são alocados recursos humanos e físicos. Essa louvação é feita sempre que uma autoridade de alto nível do executivo ou das Forças Armadas é ouvida. Claro que declarar publicamente que algo como ajuda humanitária é feita com base no próprio interesse é algo que pode gerar constrangimentos políticos internos, e daí surge os vários discursos justificadores que são construídos em torno de uma meta-física dos valores nacionais. Um exemplo, o Brasil ajuda ao Haiti por que tem um povo caridoso e sempre disposto a ajudar ao próximo. E assim se transfere ao Estado essa característica como se esse fosse na prática herdasse de alguma maneira as característica humanas.

É parte desse jogo também caracterizar o adversário ou aquele com quem se disputa uma posição de poder como um ente auto-interessado, que usa a ajuda humanitária como mecanismo de manutenção de influência e de poder relativo. Essa caracterização em tom de denuncia ecoa nos meios de informação, ressoando e como dito acima galvanizando apoio de várias correntes de opinião pública.

Esse cenário é conhecido dos analistas de relações internacionais, embora não seja percebido nesses mesmos moldes pelas várias correntes teóricas por isso como sempre nas ciências sociais e em especial nas relações internacionais vemos opiniões díspares e por vezes contraditórias acerca da temática da ajuda humanitária. Há, por exemplo, uma maior facilidade de perceber elementos de auto-interesse na política externa dos EUA do que na política do Brasil. Isso em parte por que há farto material de pesquisa acerca de cada uma das ações passadas e presentes da única superpotência restante. Além de que muitos dos elementos teóricos de análise mesmo se pretendendo universais são na verdade moldados para analisar os padrões de interação internacional de Washington.

Ter ciência que as ações de política externa são orientadas para a consecução do interesse nacional (ou como esse é percebido pela liderança política, acadêmica, grupos de interesse, etc.), entretanto não se configura em conseguir definir qual desses interesses ou mais provavelmente que grupos de interesses determinada ação, no caso ajuda internacional corresponde.

E está justamente em mapear que interesses serve uma ação de ajuda humanitária um ponto de grande celeuma teórica além da tradicional celeuma se os ganhos políticos da cooperação internacional são calculados de maneira absoluta ou relativa.

Conjugar essas alternativas de maneira lógica e sustentada em quadros analíticos precisos e com resultados substanciados pelos fatos é o grande desafio do analista internacional, seja na academia, na imprensa, ou no governo com a diferença que o primeiro grupo tem a liberdade de criar todo tipo de cenário, o segundo pelo alcance que tem acaba por ser um formador de opinião e o terceiro é pautado e constrangido por determinações políticas, agendas diversas e pela natural cautela de quem cuida das relações de estado.

Deixo o convite a você refletirem essas questões e atingir suas conclusões efetuando sua análise tentando (ao menos) abarcar toda a gama de possibilidades, causas e conseqüências. Buscando, como não podia deixar de ser, elementos que corroborem suas conclusões, de preferência elementos que não sejam suas próprias desconfianças, seus próprios preconceitos.

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