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Bases americanas, fronteiras, Uribe, Lugo, Morales e Lula. Ou sobre helicópteros em chamas – I

Antes de qualquer coisa rendo aqui minha homenagem aos policiais militares mortos em confronto com traficantes no ultimo fim de semana na cidade do Rio de Janeiro. Esses homens, como muitos outros, morreram no cumprimento do dever, ainda que o real e tangível risco de morte seja inerente a escolha profissionais desses policiais caídos não diminui de maneira alguma a tragédia humana que é a morte de um pai de família. Deixo meus sentimentos de condolências a seus familiares e aos familiares de todos os que tombaram cumprindo seu dever. E não posso deixar, também, de estender essas condolências aos familiares do inocentes vitimas colaterais desse confronto.

Nunca li nenhuma pesquisa que aborde estatisticamente como os cidadãos, políticos, servidores públicos (civis e militares) e acadêmicos vêem as questões de segurança nacional (quem souber de tal pesquisa, por favor, me diga), quais são as principais ameaças que são percebidas e assim por diante. Pelas publicações que acompanho e leio percebo que as hipóteses principais de emprego vistas pelas forças armadas são cenários que compreendem a ação de potências extracontinentais ou coalizão atacando o Brasil.

As doutrinas são elaboradas com base nas lições de guerras chamadas de terceira geração, como fica evidenciado nos planos da Marinha do Brasil de possuir submarinos nucleares, aproveitando dos ensinamentos da “armadilha da Malvinas” (resumidamente os navios da Armada Argentina foram recolhidos aos portos depois que um submarino britânico afundou o orgulho da armada o Cruzador General Belgrano, o que dificultou a logística das forças de terra argentinas, tornando a defesa das posições conquistadas no arquipélago insustentável).

Por sinal a Marinha tem defendido sempre que pode a tese da Amazônia Azul, se referindo ao mar territorial brasileiro e a necessidade protegê-lo, principalmente garantindo a Zona Econômica Exclusiva. Da mesma forma o Exército Brasileiro mostra uma propensão a pensar a defesa nacional em termos da integridade do território, em especial a região amazônica. A Força Aérea da mesma forma também tem a defesa da integridade em alta conta, em especial na região da Amazônia.

Não quero defender aqui que essa visão está errada estar preparado para projetar força e defender o território é vital para a sobrevivência do Estado, afinal como diz Sun Tzu é no campo de batalha que se define a vida ou a morte dos Estados. A pergunta que me invade a mente tem a ver com isso, ou seja, estamos nos preparando para o campo de batalha mais provável? Sei que entre as preocupações dos militares brasileiros se encontra a questão de como lidar com o evento de falência de Estados vizinhos ou situações que incorram num grande fluxo de refugiados.

Dentre os inúmeros cenários de preocupação com a segurança nacional devo admitir que o que mais me intriga e o que vejo que há uma percepção e ação falha dos organismos responsável são as questões ligadas a porosidade das fronteiras e ações transnacionais que podem fazer um conflito muito rapidamente se deslocar não respeitando fronteiras tradicionais. Um exemplo são as bases das FARC fora da Colômbia.

A face mais visível desse problema é o crime transnacional que tem impactos profundos em todas as camadas da sociedade, não só com o trafico de drogas, mas com crimes graves como evasão de divisas, trafico de pessoas, extorsão, receptação de fruto de roubos, descaminhos, contrabando. Claro o terrorismo, também, é uma das maiores preocupações de segurança em todo mundo.

Esses crimes corrompem autoridades de fronteira, seus executores se infiltram na política e em vários aspectos da vida social, degradam comunidades e famílias prejudicando o próprio tecido social. O combate ao narcotráfico não é apenas uma questão de segurança pública ou como alguns defendem de saúde pública é uma clara e inequívoca questão de segurança nacional.

Os traficantes conseguem movimentar armas, dinheiro e drogas pelas fronteiras brasileiras que são sob todos os aspectos porosas, logo os mesmos mecanismos usados para o tráfico potencialmente podem ser usados para alimentar forças insurgentes ou radicais de qualquer matiz. Assim, é vital ao estado brasileiro combater o problema do narcotráfico.

E ai que entram os nomes e correlações no título desse post. Em virtude dessa faceta do interesse nacional (paz social, segurança pública e segurança das fronteiras) o governo brasileiro poderia agir de maneira condizente com o discurso de protagonismo que tem feito ad nauseaum.

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