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Caminhos do Brasil (parte – I)

Desafios Internos

Enquanto boa parte da população brasileira se concentrava nas venturas e desventuras “indianas” do folhetim global (diversão justa, não sou desses chatos que culpam a cultura de massa e a novelas por tudo de errado), outro folhetim não menos pitoresco se desenvolve em Brasília, a novela em questão como já nos diz o título é referente aos caminhos do Brasil.

Essa novela não tem definição fácil de núcleos, nem de mocinho ou bandidos, mas impacta diretamente o futuro de todos nós cidadãos brasileiros, ou estrangeiros que aqui residam, e por causa da crescente interdependência de certa maneira impacta a vida global.

O momento é pitoresco, por que é um dos raros momentos na história recente em que e o Brasil está com a economia bem manejada, há democracia e parece existir nas correntes de opinião pública uma crescente preocupação com os caminhos da inserção nacional brasileira, não mais em termos de “entreguismo” versus “nacionalismo” (embora alguns insistam em assim ver o mundo). Ainda temos embates de modelos principalmente com enraizado modelo de “nacional-desenvolvimentismo estatizante” e o aqui apelidado de modelo “neoliberal”.

O debate avançou muito já que a estabilidade macroeconômica continua desde a instituição do plano real (com correções de rumos é claro) criou bases para que empresas brasileiras se internacionalizassem e todos os setores se dinamizaram a partir do acesso a tecnologia e ganhos de escala (aumento das fronteiras de produção). Essa realidade econômica deu cacife para projetos políticos.

O principal projeto político brasileiro é consolidar seu status de potência média e interlocutor natural entre as economias mais avançadas e os países em desenvolvimento e de menor desenvolvimento. A luz dessa agenda se percebe por que a diplomacia brasileira tem se dedicado (com algumas frustrações) a obter cargos de destaque em organismos multilaterais, tem buscado ser líder em temas diversos de econômicos a climáticos e claro a coroação desse status a perseguida cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Contudo, esse status pretendido exige do Brasil ação diplomática forte, uma economia diversificada e em crescimento sustentável, continuo e estável e de poder duro de capacidade de emprego militar.

E é nesse front de organização interna de planejamento é que as fragilidades históricas da administração pública no Brasil começam a mostrar sua marca. A começar pela enorme presença dos gastos correntes do governo em relação ao PIB, ou seja, o custeio da máquina é elevado diminuindo o espaço para uma melhoria tributária e baixas de tarifas e alijando a capacidade de investimento do governo, que acaba por recorrer a poupança externa, aumentando a dívida pública.

A recente expansão de gastos do governo pode ter um impacto perverso na economia justamente, por que não foram resultados de medidas anticíclicas, além disso, são vários os economistas que apontam que o aumento da participação do estado na economia, não como regulador, mas como agente econômico pode ser no longo prazo uma ameaça a capacidade de inovação, mesmo em setores de vantagens comparativas como combustíveis alternativos.

Educação é outro grande desafio ao aumento do poder relativo e da posição brasileira no sistema internacional, já que o capitalismo vive de inovação e quem desenvolve primeiro novas tecnologias fatura mais ao vender produtos na melhor fase do ciclo de vida e em mercados com poucos competidores. (economia básica). Para atingir objetivos estratégicos postos e mesmo os objetivos que chamo de naturais que são aqueles que melhoram a qualidade de vida da população é preciso educação, pesquisa e inovação.

E é preciso a meu ver que toda essa discussão seja muito clara na sociedade, o que acaba por não ocorrer haja visto que escândalos políticos diários e escabrosos casos de corrupção monopolizam o debate político, empurrando decisões importantes para tecnocratas, que não obstante sua competência individual, não deveriam ditar diretrizes, essas deveriam vir do debate democrático, do jogo político.

É um momento de inflexão importante já que uma parte desse objetivo nacional de ser um Brasil grande, um Brasil global player já foi atingida, já que o Brasil tem peso relativo em questões econômicas e comerciais e a depender da atuação na Conferência do clima em Copenhagen, pode assumir um papel privilegiado, também em questões ambientais.

Um dos maiores adversários dessa agenda ambiciosa do Brasil é interno é o próprio modo como o estado é organizado, falho, lento e corrupto o que dilapida sua própria capacidade de ação em suas esferas direta de competência, como segurança nacional, segurança pública, educação básica, infra-estrutura. Essa fragilidade institucional ainda que tenha diminuindo (e em comparação com vizinhos latinos são até sólidas) afeta a competitividade nacional e é a economia o superávit que gera capacidade de ação política e militar.

Outro grande desafio é harmonizar os interesses perenes do Brasil aqueles que são quase unânimes em quase todas as correntes de opinião e os interesses dos grupos ideológicos e econômicos próximos a quem está no poder momentaneamente.

Essas são algumas das questões abertas para o Brasil na ultima semana muito se falou de caças, submarinos e grandes compras militares e ao mesmo tempo os jornais noticiam cortes de orçamento no Exército que levam a diminuição de contingente e óbvio do nível de “readiness” dessa força.

Em um próximo post continuaremos essa análise dos caminhos do Brasil, uma novela real, mas não menos dramática que os folhetins que fazem o gosto dos telespectadores brasileiros.

É um tema de análise profícuo dado o tamanho do Brasil no sistema latino americano e o crescimento do poder relativo do Brasil no sistema mundial, ainda mais no esteio do crescimento dos BRICS, a partir da chance obtida na crise econômica.

E é um tema ainda mais oportuno para informar os cidadãos brasileiros em um ano pré-eleitoral por que todos nós, cidadãos brasileiros, temos um papel a cumprir na definição desses caminhos, por que se não nos posicionarmos alguém tomará a decisão.

Aguardemos as cenas do próximo capitulo, com aquele olhar cético quanto aos discursos pessimistas e otimistas, com a prudência de esperar dados concretos que tão bem serve aos analistas e cientistas.

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