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Estabilidade continental

Muito tem se falado na mídia sobre ameaças a estabilidade da região, tem se falado de elementos externos que desestabilizam a América Latina, em especial a América do Sul, mas uma coisa me vem a cabeça, vivemos num continente politicamente estável?

Por que analisando por alto podemos perceber em menor ou maior grau grande instabilidade política em todos os Estados da América do Sul, todos os governos da região enfrentam grupos descontentes mais ou menos mobilizados, mais ou menos internacionalizados, claro que se tivermos estabilidade como apenas ausência de guerras na região, então é um local, estável, mas eu trabalho com estabilidade em um conceito mais amplo em que há: paz entre os Estados, trocas comerciais e fluxos de investimentos entre os países, relações diplomáticas operando por “default” (sem grandes dificuldades, sem embaixadores chamados de volta), cooperação técnica, enfim a estabilidade tem essas características mensuráveis, mas também, uma característica menos quantificavel, que é a esfera do discurso, do clima entre os líderes. E um outro elemento de difícil verificação que são as ameaças e o clima político interno de cada uma das unidades nacionais que compõe o sistema que podem alterar o rumo das relações.

Tem-se dito que a introdução de novas bases americanas na Bolívia, seria um fator de desestabilização do continente um argumento que encontra no modelo de intervenção da guerra-fria sua matriz e encontra entre os nacionalistas (principalmente os setores que crêem recorrentemente que os recursos naturais da região como um todo e do Brasil, estão sempre em risco de serem tomados a força). Essa corrente de visão encontra muita ressonância em certos meios com suas variantes é claro, desde as teorias do imperialismo por um lado, e das preocupações táticas militares, típicas dos que tem que trabalhar antevendo cenários de conflito e criando doutrinas a serem aplicados nesses casos.

A mídia em geral, gosta muito de levantar várias dessas visões para se preocuparem com a presença de uma base norte-americana, que poderia ser cabeças de praia, ou uma ameaça direta, entendo que isso alimenta medos conspiratórios e deve vender jornal ou aumentar audiências televisivas.

Mas há questões lógicas para serem discutidas, se aceitamos a possibilidade de que as bases americanas desestabilizam a região antes nós temos que aceitar duas coisas como certas: 1. Que há estabilidade na região; 2. E que os EUA são hostis.

E convenhamos são duas coisas muito difíceis de asseverar com a certeza categórica, afinal, com o mundo entrelaçado como está e o grau de Investimentos Estrangeiros Diretos na região, não me parece lógico que o governo americano queira criar uma desestabilização na região.

Mas quem defende essa posição argumenta que a razão das bases seria conter o avanço da influência russa e iraniana na região e não o combate ao tráfico de drogas (terreno que por sinal é a MAIOR ameaça a estabilidade da região e que não é levado com o devido peso nos foros multilaterais regionais). Novamente aceitar essa premissa implica necessariamente em aceitar outras premissas embutidas que são: 1. A presença dessas potências estrangeiras na região é positiva. 2. O acordo com esses países seria uma forma de contrapor a influencia americana na região. 3. Que essa influência é nociva aos países da região.

Novamente posições muito difíceis de provar de maneira lógica e não ideológicas, e claro a questão militar de que se essas bases são de uma maneira um suporte logístico na região, para um ataque, ou coisas do gênero bastaria um dos porta-aviões americanos, para provocarem do mar, um sério estrago nas defesas aéreas da região. E que se essas bases serão usadas para operações clandestinas, essas operações ocorreram com a base ou não por sua própria natureza.

Então, por que tanta confusão acerca do tema? A resposta é clara, a opinião pública e suas correntes, por que é indiscutível que há um forte anti-americanismo na região que é facilmente arregimentado para servir de justificativa para qualquer tipo de posição que passaria a ser uma questão de honra nacional e de não interferência em assuntos internos, como já escrevi em outro post esse tipo de discurso é perigoso e em geral, mas não via de regra, costuma andar de “mãos dadas” com o populismo (tanto faz se de direita ou esquerda).

Portanto, meus colegas, como sempre muita calma quando a julgarem assuntos assim, por que costumeiramente é nesse tipo de discurso que encontramos grandes influências ideológicas e um tratamento abstrato do assunto, carregado de afirmações sem o devido fundamento.

Não creio que a região seja estável, justamente por que há forças, extremamente antidemocráticas em quase todos os países ganhando espaço, com o discurso, por vezes simplista do legitimo sobre o legal. Também por que as crises diplomáticas são recorrentes, bem com a ingerência externa, que é gerada em campos difusos incluindo as alianças nas correntes de opinião transnacionais, alianças partidárias.

Eu pelo menos sempre trato desses assuntos com cautela e buscando o máximo de elementos possíveis, vocês notaram que ainda não dei a minha opinião sobre os assuntos que obviamente instigaram esse texto, bom isso fica pra depois, mas é interessante ver como já previa como todos esses assuntos vão se entrelaçando, ainda mais nos discursos que chamo de justificativos.

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