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Há uma teoria brasileira das Relações Internacionais? Um ensaio sobre a análise das relações internacionais

Em meu ensaio “Análise das Relações Internacionais do Brasil, que caminho seguir?” (aqui) indiquei um texto que do conceituadíssimo professor Amado Luiz Cervo [CERVO, Amado Luiz. Política exterior e relações internacionais do Brasil: enfoque paradigmático. in Revista Brasileira de Política Internacional - RBPI, Brasília, v. 46, n. 2, Dec. 2003. Disponível aqui.].

A intenção inicial daquele ensaio era fazer uma análise da política externa brasileira e aquele ensaio acabou se convertendo em uma apologia da análise cientifica e metodológica das relações internacionais. Em oposição às análises “contaminadas” por assim dizer, que comumente proliferam na blogosfera e na mídia, tanto a chamada grande mídia, quanto na chamada mídia alternativa.

Ultimamente, aliás, desde que entrei na Universidade anos atrás ouço falar da existência ou não de uma teoria nacional das relações internacionais por uma mão, e por outra, é comum também se repetir incessantemente é que a disciplina é deveras dependente de manuais e materiais estrangeiros, especialmente anglo-saxões. Contudo não acho que seja essa segunda afirmação verdadeira, se compreendida quando ela dita como se isso fosse uma deficiência ou uma espécie de colonialismo intelectual. Quando na verdade creio que o acesso ao que há de ponta na pesquisa e na formulação teórica das relações internacionais é altamente benéfico aos estudantes brasileiros.

Isso por que esforços como o que o cito no primeiro parágrafo são cada vez mais comuns são esforços que criam uma corrente interpretativa nacional, mas cientifica, portanto não nacionalista. Embora, como sabemos a pesquisa nas relações internacionais é influenciada pela agenda externa do país. Não só de maneira direta como financiamentos específicos para pesquisas nesse ou naquele assunto primordial para a agenda de um país. Mas, também por que esses temas da agenda internacional repercutem na sociedade e despertam a curiosidade acadêmica dos pesquisadores. Assim não é de espantar que a literatura americana, por exemplo, tenha o poder (e as hipóteses de seu exercício), a governança global e fatores de segurança como temas recorrentes e centrais (não importa nesse contexto as correntes teóricas), e que a literatura brasileira seja bastante envolvida na questão da inserção nacional, qual caminho seguir, quais alternativas e explica também a atenção que questões relativas à governança por meio de organismos multilaterais.

Ou seja, a literatura brasileira, talvez pela alta presença e permeabilidade entre a academia e a chancelaria, se ocupa como nos ensina Amado Cervo, tem sua análise gestada nos gabinetes, como subsidio a tomadores de decisão. Eu vejo isso de uma maneira bastante positiva, pois a preocupação que as relações internacionais e sua comunidade epistemológica mantiveram com a realidade, afastou as relações internacionais de caminhos altamente ideológicos que outras ciências sociais tomaram no Brasil, assim se manteve cientifica.

Entendam não estou dizendo que as correntes interpretativas das relações internacionais aqui no Brasil, não tenham algum viés ideológico, entra no que chamo de axiologia do cientista social, mas a disciplina como um todo, conseguiu se manter plural, embora haja uma convergência, a chamada convergência neo-neo, na chamada fronteira do estado da arte. Ainda há muito que avançar em termos teóricos e analíticos.

O que digo é que há uma verdadeira corrente interpretativa brasileira das relações internacionais, que como na linguagem de Sombra Saraiva, entende que as teorias de abrangência universal, falham como meio explicativo, principalmente para países na posição do Brasil de potencia regional, e potencia econômica e ao mesmo tempo uma força militar apenas regional, ou seja, países que projetam poder de forma diferente a da prevista por essas teorias, contudo há conceitos nessas teorias que podem ser utilizados para produzir uma análise cientificamente bem fundamentada. Em especial vemos isso nos esforços ligados às correntes da história das relações internacionais, e nos esforços de analisar as relações econômicas internacionais, em especial as questões de comércio multilateral.

Não sei se podemos dizer que há uma teoria genuinamente nacional, mas ciência não é lugar para ufanismo, de querer o nacional pelo fato de ser nacional. Vejo que está em vias de se consolidar uma verdadeira escola brasileira, de analisar, pensar e teorizar relações internacionais, não por devaneios nacionalistas, mas por que há um crescimento quantitativo e qualitativo dos interessados no assunto, um aumento dos programas de formação de mestre e doutores (portanto, um aumento de pesquisadores e linhas de pesquisa) e um aumento da percepção das relações internacionais pela sociedade em geral. Talvez por que vivamos tempos em que o nosso esplendido isolamento está enfraquecido e setores diversos da nossa sociedade estão buscando a inserção internacional, não só pela velha via da posição vendida, mas cada vez mais a idéia de global player tem se tornado a cosmovisão que o Brasil tem de si mesmo, e que passa a projetar issa visão como “uma certa idéia” de Brasil, como dizia o Barão do Rio Branco.

Contudo, ações governamentais não são unânimes na sociedade como um todo e muito menos na academia, onde a liberdade de sondar as possibilidades sem a responsabilidade de ter que tomar a decisão cria cenários, que podem ser bastante úteis, assim sempre haverá grupos que apóiam ou rejeitam políticas levadas a cabo pelo governo, a única coisa que deve nortear essas avaliações a meu ver, é a idéia de decoro acadêmico, de respeito ao processo cientifico (sou um disco furado, mas fazer o que?).

Como disse acima não sei responder corretamente a pergunta que me fiz nesse título, e para falar a verdade, não tencionava o fazer. Proponho, uma vez mais, uma pergunta no intuito de provocar reflexão.
Posso dizer com segurança que há no Brasil uma crescente massa crítica em matérias internacionais, capaz de análises embasadas e pesquisas muito bem elaboradas. E que por vezes, se posiciona contra as posições da diplomacia brasileira, uma fato que às vezes é muito mau interpretado por figuras dentro do MRE, não são raros os arroubos quase coléricos (com classe devo admitir) do Ministro Amorim. Isso é um bom sinal, sinal de que a academia se mantém independente com lugar, (a menos deveria) para a pluralidade interpretativa. Mesmo que muitos “intelectuais” se alinhem automaticamente à esquerda e a partidos há ao menos no mundo das relações internacionais isso não tem se convertido na existência de uma “patrulha” acadêmica.

Cabe a nós nos manter na luta, acadêmica e profissional, para que o nível de nossas análises seja sempre crescente. No mercado privado isso aumenta o conhecimento acerca e o reconhecimento das capacidades dos bacharéis em relações internacionais, no setor público cria estratégias seguras e embasadas para identificar e alcançar os interesses nacionais e na academia cria a base na qual as duas primeiras funções se assentam. Assim, como repito diuturnamente nesse blog; deferência acadêmica, rigor analítico, convicção e capacidade de auto-análise (axiológica, não psicológica não sou qualificado para falar de psicologia), são essenciais em todos os caminhos das relações internacionais, seja como diplomata, professor, consultor, despachante aduaneiro ou até mesmo numa área que nada tenha de internacional. Muitos não vão entender essa ultima afirmação, futuramente, elaboro melhor.

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